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            Excerto de recente entrevista ainda eletronicamente inédita concedida por Otacílio Melgaço ao musicólogo argentino Pablo Suarez Paz (virtual conexão Belo Horizonte/Buenos Aires):

(…) " – É fato que não há no senhor o mínimo voluntarismo para discorrer sobre si mesmo. Dados biográficos, formação musical e o que mais haja do gênero parecem ser temas enfadonhos à sua pessoa. Tentamos abordar Otacílio no ofício de várias artes (literatura, fotografia, cinema etc) mas, insisto, quem é Melgaço como Compositor contemporâneo?"

“- Um Errático.

Autodidático.

Antiparafraseático...

Valéry definia Degas como ‘o fantasma no espelho’. Sou ‘o fantasma do espelho’..."

“Conte-nos um pouco sobre meandros de sua estilística. A abordagem do minimalismo, por exemplo.”

“Pensemos a respeito de um dos seus possíveis micromeios, microscopizemos o minimal: a repetição. A repetição. Repetição, segundo Barthes, é uma característica da cultura. Em seu ‘Esta coisa antiga, a arte...’, reiterava: ‘a repetição é uma característica da cultura. Quero dizer com isso que se pode utilizar para propor uma certa tipologia das culturas. As culturas populares ou extra-européias (dependendo de uma etnografia’, reflito sobre o Oriente e uma - quimérica? - orientalidade brasílica) ‘a admitem, essa repetição dá-lhes um sentido e as transforma em fonte de prazer; a cultura sábia do Ocidente, não (mesmo que, mais do que se crê, tenha recorrido à repetição, na época barroca).’ Vejamos a arte pop. ‘A arte pop repete espetacularmente. O objetivo dessas repetições (ou da Repetição como procedimento) não é apenas a destruição da arte, mas também (o que é um resultado) uma outra concepção do ser humano: a composição, na verdade, dá acessso a uma temporalidade diferente: onde o sujeito ocidental ressente a ingratidão de um mundo de onde o Novo – isto é, em suma, a Aventura – está excluído, o sujeito warholiano (já que Warhol é um habitué dessas repetições) nele suprime o patético do tempo, porque esse patético está sempre ligado ao sentimento de que algo surgiu, vai morrer, e que só se poderá lutar contra sua morte transformando-o em um segundo algo que não se assemelhe ao primeiro. Para a arte pop, é importante que as coisas sejam ‘terminadas’ (bem delineadas, nada de evanescências), mas, não é importante terminá-las, dar à obra (e será uma obra?) a organização interna de um destino (nascimento, vida, morte). É, pois, necessário desaprender o tédio do ‘sem fim’. A repetição incomoda a pessoa (esta entidade clássica) de uma outra maneira: ao multiplicar a mesma imagem, a pop vai ao encontro do tema do Duplo, do Doppelganger; é um tema mítico (a Sombra, o Homem, a Mulher sem Sombra).’ Encaro a repetição do minimal melgaciano doppelgangermente... Contudo, ao contrário do que almejo, ‘nas produções da arte pop, o Duplo é inofensivo: perdeu todo seu poder maléfico ou moral: não ameaça nem fiscaliza: é Cópia e não Sombra: está ao lado e não atrás: é um Duplo banal, insignificante, logo irreligioso.’”

“Em mãos trago atualização minha de um epitáfio adaptado pelo senhor sobre Otacílio Melgaço, não me recordo de quem é a autoria exata. Com ar picaresco, confessa que: ‘Mata-se de paixão ou morre de preguiça, se vive, é só de vício; e deixa apenas isso: Não nasceu por nenhum lado e foi criado como mudo, tornou-se um arlequim-guisado, mistura adúltera de tudo. Tinha um não-sei-que, sem saber onde; ouro, sem trocado para o bonde; nervos, sem nervo; vigor sem ‘garra’; alma, mas sem bastante fome. Muitos nomes para ter um nome. Idealista, sem idéia. Rima rica, sem matéria-prima; de volta, sem nunca ter ido; se achando sempre perdido. Poeta, apesar do verso; artista sem arte, ao inverso; filósofo – vide-verso. Um sério cômico, sem sal. Ator: não soube seu papel; pintor, do-ré-mi-fá-sol; e músico: usava o pincel. Uma cabeça! Sim, de vento; muito louco para ter tento; seu mal foi singular de mais. Seus pés quebrados, pés demais. Avis rara – mas de rapina; macho... com manha feminina; capaz de tudo, bom pra nada; com certeza, por certo errada. Pródigo como o filho errante do Testamento, herança vacante. Rebelde, e com receio do lugar comum não saía do lugar. Colorista sem cavalete; incompreendido... –  abriu o peito; chorou, cantou em falsete; e foi um defeito perfeito. Não foi alguém, nem foi ninguém. Seu natural é o ar bem posto, em pose para a posteridade; cínico, na maior ingenuidade; impostor, sem cobrar imposto. Seu gosto está no desgosto. Ninguém é mais igual, mais gêmeo – irmão siamês de si mesmo. Vê-se a si próprio ao microscópio: micróbio de seu próprio ópio. Viajante de rotas perdidas, S.O.S. sem salva-vidas... Muito cheio de si para aturar-se, cabeça ‘alta’, espírito ativo, finda, sem saber findar-se, ou vivo-morto ou morto-vivo.’ Aqui o Compositor?

" – Quiçá? Se bem me recordo: ‘...de coração sem cor, desacordado, um bem logrado malogrado.’ Cordisburguensiando-se...”

O   b    r    a   s /

D i s c o r d i o g r a p h i a

M ú s i c a

C o n t e m p o r â n e a

- Nota -

"Nunca apreciei o palavrório dos jargões musicais... Sempre achei a dita ‘crítica especializada’ – quando desbravando picuinhas terminológicas – causadora de sonolência e enfado. O músico norte-americano Elvis Costello, em certa feita, afirmara: ‘Falar sobre Música é o mesmo que Dançar sobre Arquitetura’. Concordo plenamente. Escrever também o é. E por isso lhes peço perdão pelo perfil heterodoxo das minhas intervenções... Otacílio Melgaço, em seus sítios eletrônicos, não insere datas que possam situar suas Criações. Ele crê na intemporalidade das mesmas, e eu adiciono o seguinte pensamento: ele crê pois percebe que se inscrevem muito mais numa concepção cronológica que desconstrói o Tempo do que de diacronia ou sincronia. Otacílio Melgaço pouco revela – na internet – fotografias suas ou esgota as partes gráficas de Obras pois, para ele – se bem o compreendo – seria uma maneira de lançar focos visuais (que existem mas devem se reservar à surpresa de quem buscará a suprema tactibilidade de cada disco) por sobre o que, em princípio, é genuina e subjetiva e invisivelmente sonoro. Por mais que o internauta possa estranhar tais artimanhas melgacianas  - e tem todo o direito -, haverá de perceber que as lacunas temporal e ocular (apesar de saber que o Séc. XIX ou XX aqui ou acolá lhe são pilastras assim como, noutras circunstâncias, a antiguidade, a era medieval etc. Apesar de saber que Blake, Dürer ou Redon são a fonte plástica da qual pode partir o designer Melgaço) ...haverá de perceber o internauta que as lacunas temporal e ocular devem ser preenchidas a priori pela prospecção auditiva – mesmo que, de soslaio, sementeada pela palavra. Palavra exclusivamente reservada à minha responsabilidade, eleito pelo brasileiro como seu resenhador cibernético oficial – fato que me honra sobremaneira. Da Palavra à Nota Musical. Da Nota Musical ao Ruído. Do Ruído ao Silêncio. E, se do Silêncio houver o ato de ‘abraçar’ determinado(s) Engendro(s) discográfico(s) -  na forma de auspiciosa(s)  encomenda(s) como a Chave para um Elo Perdido -, terei cumprido minha missão de quase incógnito ‘paridor’. E somente a partir daí é que realmente nossa Odisséia (pela interdisciplinar artisticidade, pelo Museu de Tudo que é cada manifestação artística melgaciana) terá seu cabível início. Nossa notável iniciação... A partir daí, sim, dancemos, como deuses, sobre a arquitetura sonora de Otacílio Melgaço."

P.S.Paz

 

Para ouvir fragmentos das Obras melgacianas citadas abaixo

(hear fragments) http://otaciliomelgaco.vilabol.uol.com.br/otaciliomidia.htm

 

M i n o t a u r o m a n c i a

Opus I (a M. Nardy)

Opus II (a Paul B.)

Opus III (a Yoko O.)

Opus IV (a Anthony B.)

Opus V (a E. Figueira de Melo)

Opus VI (a Pablo P.)

Opus VII (a Ryuichi S.)

Opus VIII (a James Patrick P.)

Opus IX (a Heitor V.-L)

Opus X (a Anton W.)

Opus XI (a John C.)

Opus XII (a Erik S.)

Opus XIII (a Karlheinz S.)

Opus XIV (a João G.R.)

Opus V (a Cocteau T.)

Composição/Instrumentação/

Arranjo/Mistura/Transcriofixação:

O t a c í l i o  M e l g a ç o

Convidados Especiais:

Zycluz Quartett

Amedeo Rizzi

Célestine Alavoine

Nausícaaa Ensemble

Homenagem a: Saruê (Opus I),

Xavante (Opus IX)

Estúdio Y o k n a p o t a w p h a + Unidade Euromobile

Copyright O.M ©. - Todos os Direitos Reservados

Resenha UMA TORRE SE ERGUERÁ DO FUNDO DE NOSSOS CORAÇÕES E

MELGAÇO ESTARÁ À BORDA

‘Em nossa consciência sucede-se, ao mesmo tempo, o florescer e o fenecer’, o fenecer e o florescer.

‘Assim, pois, reprimo-me e afogo a chamada sedutora que brota no obscuro soluço. Ah, a quem poderemos recorrer? Não aos anjos, tampouco aos homens. E já os animais, sagazes, advertem que inseguros e vacilantes são os nossos passos através do mundo interpretado.’

Recorro à Minotauromancia.

‘Cerra-me os ouvidos: posso te ouvir.’

Minotauromancia 'é a obra de arte mais antiga.’

‘Oxalá então à saída da visão raivosa, inicie a cantar de júbilo e glória aos anjos.’

‘Vivo minha vida em círculos que se abrem sobre as coisas, amplos. Talvez não consiga cerrar o último porém quero tentá-lo'. Giro em torno do Minotauro; oh Minotauro, se(r)mítico, ‘antiga torre, giro já há milhares de anos. E ainda não sei se sou águia ou tormenta ou se sou um grande cântico.’

‘Que direito’ teria essa obra ‘a nascer de mim se não fosse mais do que eu? Eu não sou um autor que faz’ música! ‘Minhas obras não seriam mais que a continuação de uma disposição e de progresso interiores, de um devir mais puro e mais vasto de toda minha natureza... Por acaso eu tenho direito a dar uma explicação justa de minhas obras? Elas me superam até o infinito.’

‘Oh velha maldição dos musicistas que se queixam quando devem dizer; que sempre opinam sobre seus sentimentos em lugar de formá-los, e supõem que quanto neles seja triste e alegre saberiam e poderiam em músicas chorá-lo ou festejá-lo. Como enfermos convertem em lamento sua linguagem, para dizer onde lhes dói, em vez de se transformarem, eretos, em sons, como o canteiro de uma catedral transforma-se na calma da pedra...’

Oh, Minotauro! ‘Só nós vemos a morte, o animal livre já tem o seu próprio ocaso atrás de si e perante si Deus, e quando vai, caminha pelo eterno, o mesmo que as fontes. Nunca temos, nem um momento, o puro espaço à nossa frente, em que as flores se abrem, intermináveis. Sempre há mundo...’

‘...essas transformações silenciosas, secretas, trêmulas, as únicas das quais sairão os entendimentos e unidades de uma distância mais iluminada.’

Minotauromancia!

‘O homem desta guerra e todo contemporâneo deste homem, eu mesmo, todos me parecem tão separados do mundo da natureza! Relacionar-se com um campo, com a graça de uma tarde, parecia-me arbitrário e falso, pois que saberiam a árvore, o campo e a paisagem da tarde sobre esse homem infeliz, devastador e assassino? Mas sempre existe uma conexão inexprimível entre um homem que trabalha e cria em paz e a natureza, ocupada santa e radicalmente.’

‘Nossa tarefa é imprimir em nós mesmos esta terra transitória e caduca, tão profunda, tão dolorosa e apaixonadamente, que sua essência volte a ressuscitar em nós, invisível’, (in)audível.

‘Mantenhamo-nos entre os dentes para a transformação e que ela nos capte de todo em sua cabeça contempladora.’

O Minotauro 'necessita de nós'. O Minotauro 'não pode existir sem o Homem.’

'Que farás, Oh Minotauro? Teu cântaro sou eu (quando me rompa?). Tua bebida sou eu (e quando eu verta?). Tua mirada, que acolho em minha face tíbia, longo tempo caminhará em minha busca e ao por do sol dormirá no seio de pedras estranhas. Que farás Senhor, então? Tenho medo.’

‘Eterno, tu te tens mostrado a mim. Te quero como um filho bem-amado...’

‘Provemos perdidamente o mel do audível para acumulá-lo na grande colméia de ouro do Inaudível.’

"Se Otacílio Melgaço tivesse registrado em um diário íntimo tudo o que erigia ao compor a Obra discográfica 'Minotauromancia', seriam transcrições muito próximas às reveladas acima aquelas com as quais se defrontariam nossos instigados, ávidos olhares. Acima, uma adaptação que fiz a partir de escritos rilkeanos. No final das contas, à la Novalis, a tenho como nítidos Fragmentos Melgacianos.

O Disco, tal qual um Oráculo, nos propõe viagem mítica (ao mesmo tempo uma intra-odisséia) que parte do sertão das Minas Gerais, cruza nichos sonoros que nos entranham em um Egito, uma Grécia, uma China, ..., e um Além-Ocid-Ori-ente imaginários até nos fazer retomar as veredas sertanejeiras dos re-cantos mais amelgaçados para, culminante, estabelecer o Imensurável como recomeço, repartida.

Otacílio insere no universo da música 'séria': elementos de uma etnicidade espaço-atemporal desafiadora pois a torna berço conjunto a timbres exotizados, ritmos ad libitum, durações imetronometráveis, alturas valecimeiradas. Transita pelo jazz, livre improvisação, poemas de Leopardi, cantos indígenas, (pseudo)silêncios johncageanos, contrapontos báquicos (é válido o trocadilho), etc, etc, etc; nunca aproxima-se de qualquer suspeita acentuação world-music(al) já que tem a perspectiva de compositor contemporâneo a lhe servir de Norte. Norte que o livra de uma tendência atual: a exploração, facilmente desgastável, dos folclorismos afins. Por outro lado, o livra também da fleuma ou do vale-tudismo eruditista pós-moderno. Peças dedicadas a Anton Webern, John Cage, Edgard Varése, Villa-Lobos até Anthony Braxton, Ryuichi Sakamoto ou Cocteau Twins exemplificam a polpa de meu argumento - isso, para nos mantermos restritos ao campo propriamente musical. Chegaríamos à literatura de João Guimarães Rosa, artes plásticas de Yoko Ono...

Sem me aventurar por exegeses arriscadas além dos Fragmentos com que inicio minha resenha, assumir a figura mitológica do Minotauro como Oracularidade, a meu ver, extrapola a atávica 'minotauromaquia' de Picasso e nos destina, Melgaço, a possibilidades - hoje - mais dignas de nossa atenção porque (se assim posso dizer) fundamental e ontologicamente ascencionais. Proveremos perdidamente o mel do audível para acumulá-lo na grande colméia de ouro do além-inaudível Otacílio Melgaço."

O Solitário

Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.

(Rainer Maria Rilke)

Buenos Aires;

Pablo Suarez Paz

Tradução: Viriato Fortuna

 

L o u A n d r é a s -

S a l o m é

Opus von Salomé,Gustav

Opus Rée,Paul

Opus Nietzsche,Friedrich

Opus Wagner,Richard

Opus Andréas,Carl

Opus Rilke,Rainer Maria

Opus Freud,Sigmund

Opus Jung,Carl Gustav

Opus Tausk,Victor

+

a Ljolia von Salomé (1861 – 1937)

Composição/Instrumentação/

Arranjo/Mistura/Transcriofixação:

O t a c í l i o  M e l g a ç o

Convidados Especiais:

Zycluz Quartett,

Nausícaaa Ensemble

Estúdio Y o k n a p o t a w p h a + Unidade Euromobile

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Resenha LOU ANDRÉAS-SALOMÉ:

A PAIXÃO VIVA

    Lou Salomé: uma prática de paixão; alguém que viveu a paixão com paixão, e talvez por isso mesmo provocou, até uma idade avançada, o nascimento da paixão nos seres que encontrou em seu caminho: Rilke, Nietzsche, Paul Rée, Tausk e, ao que parece, até mesmo Wagner sucumbiram ao seu encanto e à alegria de viver que transpirava em cada um de seus gestos - e o próprio Freud não parece ter sido indiferente à graça da discípula que ele qualificou de "raio de sol'.

    A paixão de Lou pela vida transparecia em seu próprio físico. Freud lhe escreveu um dia: "você tem um olhar como se fosse Natal". E a escritora Helena Klinkberg (citado por Peters): "O sol se levantava quando Lou entrava numa sala". Era um ser luminoso, transparente e lúcido, daquela lucidez talvez de que fala João Cabral de Melo Neto a respeito de Monsieur Teste: "uma lucidez que tudo via, como se à luz ou de dia". Um ser humano para quem a felicidade é condição natural e destino do homem: "dentro da felicidade eu estou em casa". E ainda: "A única perfeição é a alegria".

    Essa paixão pela vida, ela a transmitia aos outros, fazendo com que as pessoas ao seu contato desenvolvessem e dessem o melhor delas próprias. O que fez alguém escrever: "Quando Lou se interessa apaixonadamente por um homem, nove meses depois este homem dá à luz um livro. Um interesse pelo outro que o leva a crescer e produzir - mesmo quando esse crescimento e essa produção implicam o sofrimento.

    Pois Lou Andreas-Salomé conseguiu realizar, em seus 76 anos de vida, o que nós todos gostaríamos e deveríamos fazer sempre - e não o fazemos por descaso, indolência, medo: tornar a vida o exercício apaixonada de uma busca. Sua exploração em todos os possíveis. Isto que requer a fruição intensa e incessante de coisas e pessoas que nos cercam, de modo que o mundo exterior em nós penetre e a nós se incorpore. Pois a vida, como o dizia Rainer Maria Rilke a propósito de Rodin, "está nas pequenas coisas como nas grandes: no que é apenas visível e no que é imenso."

    Antes mesmo do seu encontro com Rilke, Louise von Salomé já intuía essa verdade: desde muito cedo encontramos nela um grande apetite de aprender e de amar - e o objeto de sua atenção podia ser a psicanálise, a fruição de uma paisagem, de uma flor, de um esquilo na floresta ou de um corpo amado.

    (...) Lou escreveu vários ensaios sobre o Erotismo. O primeiro deles data de sua ligação com Rilke. Intitulado reflexões sobre o problema do amor, traz as evidentes marcas da embriaguez física e espiritual que sua autora estava vivendo. Aqui ela assinala, em páginas de um admirável lirismo, a capacidade que tem a paixão amorosa de nos abrir o caminho ao sentimento da totalidade da vida e sua faculdade de nos colocar em estado criativo. O ato amoroso "nos enche a alma inteira (...) de ilusões e de idealizações espirituais, forçando-nos ao mesmo tempo a nos chocar brutalmente, sem possibilidade de se esquivar, ao dispensador de uma tal desordem; ao corpo." E Lou escreve:

"Pois, sobretudo, resulta no indivíduo uma espécie de interação ébria e exuberante das mais altas energias criadoras do seu corpo e a exaltação mais alta da alma. Enquanto nossa consciência se interessa vagamente, habitualmente, por nossa vida psíquica, como por um mundo que conhecemos mal e que controlamos ainda pior, que, ao que parece, forma 'um' com ela, mas com o qual normalmente ela se entende mal - eis que se produz subitamente entre eles uma tal comunhão de enervação que todos os seus desejos, todas as suas aspirações se inflamam ao mesmo tempo."

    Por essa exaltação da alma através dos sentidos, por essa impressão que o ato amoroso nos dá de ter ido muito longe, e tocado o indizível, é que ele pode influenciar e favorecer a criação, a "pátria do dizível", como escreveu Rilke. E Lou: "O Mundo da criação e do amor significa: volta ao país natal, entrada no paraíso; a impossibilidade de criar, ou do amor morto, é, ao contrário, um exílio onde os deuses nos abandonam".

    A atividade criadora se apaixona por tudo aquilo que é vida em nós, que é indício do que em nós lateja de mais secreto, e que atinge as raízes do ser. O espírito descobre forças que não possuía ou das quais não se apercebia. Pode voltar àquele estado de inocência primeira que possuiu na infância, redescobre a "novidade" das coisas, com o frescor de uma sensação primitiva: o olhar da criança sobre o mundo que descobre maravilhada; o olhar de Adão diante de Eva recém-saída de si.

    Confrontado com os seus longes, o amado vê a si mesmo, e ao mundo exterior, como algo recém-criado. Por isso, às vezes a gente sai do amor como quem saiu de uma catedral, redescobrindo o mundo aqui fora com os olhos renovados. O ato amoroso, vivido em plenitude, obriga os amantes a concentrar em si mesmos tudo aquilo de que são capazes, passível de germinar com a força das plantas na primavera.

"Nesta igualdade original do corpo e do espírito e nesta consciência ingênua de um e de outro - uma criança que acredita em tudo que vê, para quem tudo se renovou, que, cheia de uma fé e de uma confiança sem limites, gostaria de gritar sua alegria ao esplendor inverossímil do mundo, e não saberia saudar de melhor modo a razão senão fazendo cabriolas diante dela...como se balbuciasse em sonho, ela tem algo a dizer sobre estes esplendores ocultos que lhe fizera, ai de nós, esquecer tantas coisas úteis e necessárias."

    O ato amoroso transforma o parceiro num "conto estranho e maravilhoso". A Paixão amorosa é uma porta, diferente de todas as outras portas, "em sua arquitetura ornada de elementos ricos de sentido, em virtude de um simbolismo singular". É o caminho por excelência que nos leva a nós mesmos. Por ela "nós não somos um mundo de realidade, somos apenas o espaço e o metteur en scène de um mundo onírico, todo-poderoso, irresistível."

    Assim, o amor durará enquanto os amantes forem capazes de oferecer um ao outro essa entrega, que dá acesso de modo vital à capacidade de se concentrar neles mesmos, de ser um mundo para si por causa do outro.

    A esta altura, a gente poderia se perguntar - não seria esta uma visão demasiado idealizada do amor? Mas Lou não se deixa embalar incondicionalmente pelo êxtase da paixão: esta grande amorosa foi também, segundo a expressão de Freud, uma "compreendedora."

    Neste mesmo ensaio, ela nos lembra que no êxtase amoroso, por mais que desejemos nossa fusão com o amado, sempre somos, em última análise, remetidos a nós mesmos. A reconciliação que se fará aqui será sobretudo entre o sujeito e ele próprio através do outro, mais do que entre o sujeito e o objeto amado.

    Num ensaio sobre o erotismo, datado de 1910, e num posterior, quando Lou já se engajara definitivamente à psicanálise, intitulado Anal e Sexual, ela nos lembra que na união física "a gente não possui um ao outro por meio do corpo, mas apesar do corpo, que, como todo mundo sabe, não se identifica jamais (...) completamente com o todo da pessoa, mas aparece sempre como uma parte dela e resiste à dominação mais viva."

    (...) A fusão inteira do nosso ser com o outro, por mais querido que seja, não seria desejável. É preciso que sejamos cada vez mais nós mesmos, para poder ser um mundo para o outro. A relação erótica, remetendo-nos a nós próprios, é uma ocasião de constante renovação: cada vez ela inaugura em nós um ser novo; como um ato de linguagem, cada vez que eu falo a um Tu, é um Eu diferente que fala a um novo Tu: quando digo Eu, já não sou aquela que falava há pouco. A relação erótica é, assim, nela mesma, criação. E o amor um elemento de produção: somos a cada instante outros, encontramos no outro cada vez um elemento novo, diferente, desconhecido, misterioso até... - o que dá à relação erótica sua riqueza:

"Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas...e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um no outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro."

    É preciso de que a gente seja sempre, um para o outro, duas surpresas fecundas. Aquele mundo da fábula de La Fontaine "Os dois pombos", que aconselha aos amantes: "Amantes, felizes amantes, vocês querem viajar? Que seja pelas margens próximas/Sejam um para o outro um mundo sempre belo, sempre diverso, sempre novo./ Sejam um todo um para o outro, contém por nada o resto."

    E Lou analisa esta necessidade de renovação e da existência do mistério na relação amorosa:

"Pois, nos seio mesmo da paixão, nunca se deve tratar de 'conhecer perfeitamente o outro': por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro. É terrível de dizer, mas, no fundo, o amante não está querendo saber 'quem é' em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta em saber que o outro lhe faz um bem incompreensível..., os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério."

    Assim, o amor não seria um encontro, mas uma busca.

    Não quer dizer que chegamos, mas que estamos próximos.

    Rilke perguntava-se na Primeira elegia de Duíno: "Não é tempo daqueles que amam libertar-se do objeto amado e superá-los, frementes? Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo mais do que ela mesma."

    E nas cartas a um jovem poeta, em maio de 1904:

"Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento, cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo, não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. (...) O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe."

    Se o amor é uma busca, se o estudo é uma busca, a arte uma busca, a vida inteira é também busca. E o amor e a paixão são a mola dessa busca.

    É preciso buscar com amor, com paixão. Amar a vida, amá-la mesmo e sobretudo quando ela chega ao fim, e o espírito e o corpo vêem limitados seu campo de ação. Nos Cadernos íntimos dos últimos anos, Lou Andreas-Salomé dá um balanço de sua vida. Em fevereiro de 1934, isto é, três anos antes de morrer, ela escreve:

"Distingue-se entre os humanos aqueles que se sentem divididos em um passado e um futuro e aqueles que vivem o presente com cada vez mais densidade, sempre mais plenitude. Os orientais acham natural insistir menos sobre a morte do que se passa...do que...sobre a perfeição do que se acaba, como aprofundamento da realidade. Nós, ao contrário, começamos a ver aquilo que nos chega, apenas sob o aspecto sempre mais sinistro da morte - como tudo o que se observa de um olhar exterior, logo mortífero."

    E um pouco mais adiante:

"Sempre não tive a idéia fixa de que a velhice me traria muito? Em meus jovens anos escrevi em algum lugar: primeiro nós vivemos nossa juventude, em seguida nossa juventude vive em nós. Não sei bem, ainda hoje, o que eu queria dizer com isso outrora. Mas eu tinha realmente medo de não atingir a idade de viver esta experiência; eu o sabia profundamente, uma longa vida, com todas as suas dores, vale ser vivida. Claro, o valor da vida pode nos ficar escondido pelos desgastes sofridos pela nossa carne, nosso espírito, (...) do mesmo modo que a juventude mais empreendedora pode se ver entravada em sua felicidade e em seu sucesso, por um fatal concurso de circunstâncias; mas, por além das perdas, a velhice adquire muito mais que a famosa aptidão à serenidade e à lucidez: ela permite que se chegue a uma plenitude mais acabada."

    A velhice pode ser, assim, uma volta àquela espécie de paz inicial e retorno do indivíduo a um estado de não-divisão, de fusão primitiva do eu para consigo mesmo, o corpo parece se acalmar relativizando-se...

    Num ensaio de 1901, escrito aos 40 anos e intitulado A velhice e a eternidade, Lou afirmava: "O velho está liberto de todos os seus limites pessoais e escrúpulos mesquinhos. Retirado lentamente da vizinhança imediata dos outros seres vivos, ele se vê, progressivamente, reintroduzido no grande encadeamento universal."

    É preciso amar a vida em todas as suas fases e amar até mesmo a morte. Aqui Eros e Thanatos se dão as mãos - são forças complementares e não contrárias.

    A morte é a redenção da vida individual, escreve Lou num artigo sobre o misticismo russo. Nossa morte não nos separa dos seres que amamos; ela nos entrega de modo mais completo a eles:

"No dia em que eu estiver no meu leito de morte

Faísca que se apagou -,

Acaricia ainda uma vez meus cabelos

Com tua mão bem-amada

Antes que devolvam à terra

O que deve voltar à terra,

Pousa sobre minha boca que amaste

Ainda um beijo.

Mas não esqueças: no esquife estrangeiro

Eu só repouso em aparência

Porque em ti minha vida se refugiou

E agora sou toda tua." [Hino à morte]

    A morte desfaz, assim, a distância entre os amantes, que agora vivem um no outro, sem que o individualismo os separe. A morte não é uma partida mas uma volta: um retorno do indivíduo àquela união primitiva com as coisas. Por isso não a devemos temer.

    A grande biografia de Lou Salomé ainda não foi escrita. Mas, pelo que dela nos resta, fica uma lição final de amor pela vida, de paixão pela vida, de totalização da vida. Por isso Lou desejou ser cremada e que suas cinzas fossem jogadas no jardim de sua casa, em Gottingen: para que seu corpo pudesse se incorporar à terra e ser transformado em planta e flor.

Do Livro: Os Sentidos da Paixão. Ed. Cia de Letras, 1987, págs. 359-373 - Luzilá Gonçalves Ferreira

"As colocações da sra. G. Ferreira poderiam ser consideradas uma análoga - metafórica - resenha voltada à esta Obra de Otacílio Melgaço (que se incorpora à nossa audição e se transforma em semente e semeadura em nós). Se alguém escreveu: 'Quando Lou se interessa apaixonadamente por um homem, nove meses depois este homem dá à luz um livro'; Melgaço, inovador, compôs/gravou/pariu um Disco.

As dez faixas da Prole discográfica, os dez passos da Paixão Viva de Salomé

segundo O.M. e sonorizados por O.M.

Música aleatória, eletrônica, concreta, eletroacústica, livre improvisação...Tape music, turntablism...são algumas das vertentes abraçadas pelo compositor mineiro em, das suas Obras, a mais próxima ao ‘academicismo’. ‘Salomé’ aborta os entrecruzamentos de elementos contemporâneos com sonoridades multi-étnicas ou de cunho 'popular' (como o jazz) para, idiossincraticamente, traduzir com purismo (melgaciano) as composturas próprias a Otacílio diante do legado avant garde que recebeu do século passado. Nomes quintessenciais como Erik Satie, Charles Ives..., mais: Pierre Schaeffer, Karlheinz Stockhausen e seletos outros paraninfariam sutilmente as criações que homenageiam a escritora russa assim como alguns dos notáveis com quem travou vivências. Todavia, um dos mandamentos deste Disco de Melgaço está eternizado nas palavras da própria Lou Andréas:

‘Ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!!'"

Buenos Aires;

Pablo Suarez Paz

Tradução: Viriato Fortuna

 

A l e p h

I Maasse Bereshit

II Gan Eden

III Chilul Ha-Shem

IV Kotel Hamaaravi

V Korban

VI Chevra Kadisha

VII Guilgul Neshamot

VIII Olam Ha-Bá

* (Variações Melgacianas a partir de Ludwig Van Beethoven: Streichquartett Nr.15 a-moll, Op.132, III - Molto Adagio - Heiliger Dankgesang eines Genesenen an die Gottheit, in der lydischen Tonart)

- Octetos  de  Cordas -

Composição/Arranjo/Mistura:

O t a c í l i o  M e l g a ç o

Convidado Especial:

Zycluz Quartett

Estúdio Y o k n a p o t a w p h a + Unidade Euromobile

Copyright O.M ©. - Todos os Direitos Reservados

Resenha FILHO DA ALIANÇA

“Talvez seja do compositor francês Héctor Berlioz, autor de um famoso ‘Tratado de orquestração’, a definição de música que conserva toda a sua vigência: ‘Qualquer corpo sonoro utilizado pelo compositor é um instrumento musical.’ A origem dos instrumentos musicais é remota e controversa e sua evolução acompanha a própria história das civilizações. Não há povo da Antigüidade que não tenha feito uso de instrumentos musicais mais ou menos rudimentares, já que a música é uma linguagem espontânea e inerente ao próprio homem, sendo provável que tenha aparecido antes da linguagem verbal. Difícil precisar com rigor a época e o lugar em que surgiu o primeiro instrumento. Muitos existiram em mais de uma civilização antiga. Além disso, diversos instrumentos surgiram, praticamente ao mesmo tempo, em lugares distintos. O certo é que seu uso como entretenimento puro e simples é uma conquista recente, que remonta à Idade Moderna.

 As culturas primitivas atribuíam a criação dos instrumentos aos deuses, pois acreditavam que a música tinha origem divina. Assim, de acordo com a mitologia grega, a flauta tinha sido inventada por Pan, a cítara por Apolo, a harpa por Narada, o alaúde por Pólux e a lira por Mercúrio. Os antigos chineses, por sua vez, acreditavam que a gênese dos instrumentos musicais estava na tentativa de imitar os sons da natureza. Quando se trata de uma explicação racional, porém, chega-se à conclusão de que a origem dos instrumentos deve estar intimamente relacionada com a dança, o trabalho e as atividades guerreiras ou os ritos mágico-religiosos. A música seria um importante meio de reforço no desempenho dessas atividades básicas do homem primitivo.

A Obra discográfica ALEPH do compositor, arranjador e instrumentista brasileiro Otacílio Melgaço nos reporta à concepção primordialista – atual e infelizmente, por parte da maioria dos engendradores sonoros, submetida à rara vigência – de que Música tem como útero: o Sagrado. Aproxima-se Melgaço dos ‘templários’ Levitas ao tomarmos enigmático ALEPH como o enveredamento supremo de um singular artista contemporâneo pela inesgotável inspiração litúrgico-judaica. Se ‘os místicos acreditavam que cada aspecto da natureza, cada criatura cantava sua própria canção a Deus’, as oito epifanias que honram esta Obra representam, pois instrumentais, indizível louvor a Impronunciável Adonai.  E se pensássemos, historicamente, na ‘redenção’ de um reiterante ‘exílio’, ainda submetidos à mesma Mística, seria a redenção realizada ‘através da...canção’. ALEPH poderá, sob prisma chassídico, assumir-se como veículo do 'despertar a alma para a aderência a Deus' por meio não exatamente da alegria mas do que há de ‘musicalizável’ no Hierático ou, deslocando-nos ao mais-além, no sempiternamente Numinoso. Ao retomá-la, ressalto aqui a feição instrumental de ALEPH já que, permanecendo a citar a tradição revivalista inaugurada por Dov Baer de Meirech (a partir dos ensinamentos de Israel Baal Shem Tov): da canção sem palavras, ou nigun, há a penetração aos níveis mais profundos da consciência religiosa. Melgaço, pela estatura de sua inspiração, ambiciona e, a meu ver e ouvir, conquista inestimável profundidade.

 Voltemo-nos aos títulos de suas proles:

I Maasse Bereshit II Gan Eden III Chilul Ha-Shem IV Kotel Hamaaravi V Korban VI Chevra Kadisha VII Guilgul Neshamot VIII Olam Ha-Bá

 Se pensássemos que ALEPH abriga Octetos de Cordas (duplo quarteto) – e não a tradicional formação com dois violinos, uma viola e um cello –, as emanações musicais ordenadas acima haveriam de ser uma dupla representação de arba kossot, arbaá minim, má nishtaná? Instigante porém impertinente pensamento.

Por outro lado, ao traduzi-lo e interpretá-lo, percebesse o sui generis organograma composicional melgaciano como aguçante pilpul, não pejorativo eu assim o proclamaria. Entretanto, dificilmente me contentaria com criativa tentativa de classificar a medula alephônica.

Afirmo, ao escutar e auscultar a Obra aqui resenhada, que, ‘quanto ao Oitavo Dia’, sucededor dos ‘seis da Criação e do Shabat, ele é o símbolo da transfiguração, anúncio’ do Eterno, ‘da era futura (eterna).’ Talvez seja necessário o ato de fruir por sete luas ALEPH para que, sob o manto da noite seguinte, compreendamos como bíblica alegoria e ascencional registro discográfico coadunam-se até ao Indiscernível.

Em recente entrevista concedida a mim, Otacílio Melgaço replica a seguinte indagação:

P.S.P. – ‘Como, tão diacrônico, você se sente em relação ao modus vivendi contemporâneo?'

O.M. – 'Eu me pergunto por vezes, colaço Pablo, se fui mandado para cá para me divertir. Para me alegrar?...para esquecer a miséria de outro mundo do qual não me lembro mais? Não pretendo ser eu um intruso aqui...

Sonhei, ainda ontem, que me encontrara pessoalmente com messer Satie. Ateu que sou - daí a ironia dos destinos - 'foi numa sessão espírita; ele pairava, o terceiro espírito barbado da direita. Nosso medium, que trabalhava esporadicamente como um enologista descuidado, tinha um excelente contato com ele e oferecia um Blanc des Blancs sempre que o Sr. Satie se tornava rebelde. Foi, na verdade, o aroma que emanava de meu frasco de conhaque (que vazava) e o fato de ele ter reconhecido em mim um companheiro com tendências a conservar', em delírio onírico, 'o fígado embebido em álcool, que atraiu Satie a mim e não aos outros, sóbrios, que estavam à mesa. A bem da verdade, apesar de um odor meio embolorado e uma aparência translúcida de corpo e rosto, ele estava muito bem conservado. Quero dizer: o pince-nez estava perfeitamente pousado, o corte de veludo ainda em moda e o adorável sorriso constantemente em evidência. Apesar de o aspecto geral ser de Satie, não se deve ser descuidado hoje em dia em se provar a genuinidade de um artigo, especialmente quando é volátil. Assim, no meu melhor francês, eu perguntei quais eram suas reações à música atual. Quando ele respondeu, no seu melhor inglês: ‘Não haveria mais cabeças calvas se todos se preocupassem em pertencer à nova Sociedade de Poupança ‘The Aqueduct’ e gastassem as suas economias em loção capilar’, sua identidade foi confirmada. Satie continuava Satie; e juntos nós deixamos nossos companheiros para irmos passear pelo jardim discutindo os efeitos secundários da ingestão de alcachofras de Jerusalém antes de beber um Sancerre medíocre. Deve-se tomar um cuidado especial ao revelar as palavras dos espíritos voláteis. Eles têm pouca paciência com os humanos – especialmente aqueles que dizem: ‘o que mais posso fazer além de apontar um dedo acusador para Deus? Passei a acreditar que o Velho é mais estúpido do que poderoso’. Apesar disso, estou certo de que o Sr. Satie não vai ligar para uma pequena menção póstuma. Ele obviamente concordará com ela, como sem dúvida está de acordo com a divindade. Afetado pela qualidade da noite e do conhaque, ele finalmente virou-se para mim, e, com uma voz suave e chorosa, disse: ‘Eu me pergunto por vezes, se fui mandado para cá para me divertir. Para me alegrar?... para esquecer a miséria de outro mundo do qual não me lembro mais? Não serei eu um intruso aqui...' Com uma repentina rajada de vento a figura dele se foi: assim como meu V.S.O.P. (conhaque).'

Ao refletir sobre as bricolagens verbais do inventivo compositor das Minas Gerais, duas personalidades são arbitrariamente convocadas por minha mente: Jean Cocteau e John Cage. Incensaram, respectivas, a respeito de um esfingético Erik Satie:

‘Pode-se dar Satie como exemplo a todo criador. Jamais se deixou empolgar por um encanto suspeito ou por um golpe de efeito. Jamais escutou as sereias, salvo as sereias interiores. Fechou sempre os ouvidos com cera. Sempre se agarrou, como o prudente Ulisses, ao mastro.’

‘Estranho, fascinante, incomum. Satie não pode ser inserido em qualquer escola, ou estilo, ou tempo, já que a originalidade absoluta não pertence a nenhuma escola, nenhum estilo, nenhum tempo. Religiosidade, misticismo, esoterismo, romantismo, sarcasmo, 'non-sense', absurdo, tudo isso é encontrado na música de Satie..’

O nome do compositor (e gymnopedista) francês poderia, com a máxima perspicácia, ser substituído pelo de Otacílio Melgaço porque muito se aproximam as conotações aplicáveis aos dois. Nossos Octetos de Cordas reverberam o paroxismo do século XX ao flertarem com a inventividade de um Stravinsky, Bartók, Schöenberg ou Webern (estes dois últimos, judeus). Contudo apontam para o atual milênio – no qual estamos inescapavelmente inseridos – ao assimilar novas técnicas de mixagem (mistura), masterização e etc, ou seja, abdicando do jargão musical, ALEPH é fruto de uma nova perspectiva da ‘engenharia’ sonora, heróica bússola também sob exegese melgaciana. 

Quem saberá se vítima da iniciática visionaria de um conterrâneo meu - Jorge L. Borges -, neste exato instante epilogal (e, perdão: não creio em coincidências...) enobrece meus olhos a imagem das ‘mãos juntas na forma da benção sacerdotal (birkat kohanim), com signos cabalísticos e duas letras do Tetragrama’. Como me furtar a paralela imaginação - em claro mistério -  das mãos dos instrumentistas que deram tal Obra discográfica à luz? As mesmas mãos que, provável e indelevelmente, deram à luz...ALEPH:

Octagrama fonográfico de Otacílio Melgaço."

Córdoba;

Pablo Suarez Paz

Tishrei, 5765

Fontes incidentais: Alan Unterman, Alain Gheerbrant

Tradução: Viriato Fortuna

 

O m n i a

V i n c i t

A m o r

I in Solido

II in Situ

III in Spiritualibus

IV in Sacris

V in Speciem

- 5 Peças Litúrgicas para Órgão -

Composição/Instrumentação/

Arranjo/Mistura/Transcriofixação/Arte:

O t a c í l i o  M e l g a ç o

Imagens: O.Redon

Gravado ao vivo em Viitasaari, Finlândia

Estúdio Y o k n a p o t a w p h a + Unidade Euromobile

Copyright O.M ©. - Todos os Direitos Reservados -

Resenha ORGANUM PLENUM

  O órgão passou dos palácios às igrejas de maneira bastante brusca aos olhos dos historiadores do instrumento, sem que estes pudessem atinar com as causas reais dessa transferência. Uma hipóteses é a de que o padre Jorge de Veneza teria transmitido os segredos da construção a alguns monges, seus alunos. Assim, durante os séculos seguintes a manufatura do órgão teria estado exclusivamente a cargo dos religiosos (ademais, estes representavam, na época, a classe mais culta e intelectualizada).

Na verdade, porém, a introdução do órgão no culto cristão deve ter sido cautelosa, já que os padres da Igreja tinham completo desprezo pela música instrumental. Ademais, não se sabe de nenhuma decisão papal que tenha, à época, oficializado o uso sacro do instrumento, o que só ocorreria a partir do século XVI. A difusão do instrumento nos templos iniciou-se, pois, longe dos olhos de Roma no norte dos Alpes, onde os alunos de Jorge de Veneza teriam ensinado a arte da organaria. No início, os órgãos eram utilizados nas igrejas como instrumentos didáticos, destinados ao ensino da Música. Em torno de 900 aparecem os primeiros tratados acerca dos tamanhos dos tubos e dos diferentes métodos de construção do órgão. Mas é preciso esperar pelo inicio do século X, para se ter certeza de seu aparecimento nas igrejas. Em 915, o Conde Atton mandou edificar um convento em honra a S. Apolônio e ofereceu à Igreja um cálice de ouro e um órgão.

A Crônica da Vida de Santo Osvaldo narra que no ano de 992... 'em louvor a Deus e a S. Benedito, bem como para ornar a igreja...' ele adquiriu trinta libras de cobre, que destinou à fabricação de tubos de órgão. Com as pontas orientadas para baixo, estes se inserem, em cerradas fileiras nos orifícios correspondentes; e nos dias de festa produzem, graças ao sopro possante dos foles, uma melodia doce e encantadora, que se pode aperceber de longe'. À mesma época o inglês S Dunstan, futuro arcebispo de Cantenbury, ofereceu um órgão ao convento de Malmesbury. Sobre uma placa de bronze podia-se ler: 'O prelado Dunstan (fez) este órgão em honra a Aldheim. Que todo aquele que quiser tirá-lo daqui perca o reino da eternidade'. Em 950, construiu-se na Igreja de S. Pedro de Winchester um órgão monumental com dez fileiras de 40 tubos, num total de 400 tubos. Eram precisos dois organistas para tocá-lo e setenta fortes homens para acionar os seus 26 foles.

Assim, após ser utilizado por onze séculos nas cortes e ao ar livre, o órgão insinua-se discretamente na Igreja e vai, aos poucos, identificando-se com as pompas do culto, a ponto de seu uso profano ser com freqüência ignorado pelos cronistas até épocas bastante recentes. No século XII, o órgão é tão apreciado pelos padres que é até objeto na maior parte das igrejas da Europa - mesmo nas maiores, como as catedrais de Reims e Paris -, e em inúmeros conventos. Mas seu uso sacro ainda é objeto de controvérsias. Enquanto o Concílio de Milão (1287) admitia a participação do órgão nas cerimônias do culto, o capítulo de Ferrara (1290), entre outros, decide excluí-lo da missa.

-  Evolução Técnica -

Do  século XIII ao XV, o órgão conheceu uma importante evolução técnica, no curso da qual adquiriu boa parte de seus elementos essenciais. Foram as seguintes as modificações estruturais que o beneficiaram: sistema de tração reduzido, abandono do diâmetro constante dos tubos, pedaleira, multiplicação dos teclados manuais, redescoberta da registração, construção do bufê. A construção de órgão de grandes dimensões, como o de Winchester, esbarrava na inexistência de um sistema de tração apropriado (transmissão do movimento das teclas às válvulas que permitem a entrada do ar nos tubos); assim, era preciso repartir as teclas por toda a extensão do instrumento. Para tocá-lo, eram necessários dois ou mais organistas, no caso de instrumentos grandes. Com a descoberta do sistema reduzido, origem do teclado, foi possível reunir as teclas no centro do instrumento que, então, já podia ser tocado por apenas um organista. Graças a esse sistema, o número de teclas também pode ser aumentado para o grave e para o agudo.

Todos os tubos de uma mesma fileira (registro) tinham o mesmo diâmetro, sendo a altura da nota determinada unicamente pelo comprimento destes. Ora, com isso só é possível até uma certa extensão - duas ou três oitava (além da qual os tubos graves se tornavam estreitos demais, e os agudos largos demais) - o acréscimo de notas no agudo e no grave determinaram o abandono desse sistema, passando os tubos a ter diâmetros diferentes, Isso permitiu a construção de instrumentos bem maiores.

Bem cedo os órgãos foram equipados com bordões para as notas sustentadas do baixo; com esse dispositivo, os tubos eram acionados não pelo teclado, mas por válvulas colocadas do lado esquerdo do instrumento, à altura das mãos do executivo. Depois, passaram a ser acionadas com os pés, constituindo, já uma espécie de pedaleira. Em seguida, uma pedaleira formada por teclas - um teclado para os pés - passou a ser acoplada ao teclado manual e, por fim, tornou-se independente, contando com os jogos de tubos próprios.

A multiplicação dos teclados manuais, teve início no século XV, até então, a maioria das igrejas possuía dois tipos de órgãos: o grande órgão, destinado a inundar o templo de som; e o positivo, órgão bem menor que servia para acompanhar o coro. O primeiro era fixado à parede enquanto o segundo podia ser transportado. Isso obrigava o organista a se deslocar constantemente durante a missa, fato bastante incômodo. Assim surgiu a idéia de fixar o positivo à balaustrada da tribuna, atrás do organista (daí ser chamado 'positivo de costas'), superpondo-se os dois teclados. Mais tarde, desenvolveu-se um mecanismo que permitia acoplar os dois teclados.

O  órgão antigo possuía fileiras de tubos com timbres totalmente diferentes, utilizáveis separada ou conjuntamente. Durante a Idade Média, o órgão sofreu tantas modificações que terminou por perder sua registração (jogos de tubos de diferentes timbres); além de fileiras serem constituídas por tubos semelhantes, estas só podiam soar juntas, daí o instrumento ser designado 'organum plenum'. No final da Idade Média, verificou-se um retorno a idéia de destacar certas fileiras de tubos e utilizá-los separadamente, individualizando seus timbres. A partir de então, há uma preocupação em se conseguir novos timbres, produzindo-se tubos diferentes dos já conhecidos quanto à forma e ao material de que são feitos.

Igualmente no fim da Idade Média surge o bufê, caixa de madeira que abriga os tubos e é aberta na parte superior, onde são dispostos os tubos da fachada. O bufê destinava-se unicamente a proteger o órgão. Não entanto, foi em pleno século XX que se descobriram suas propriedades acústicas (reverberação e projeção do som), quando sua construção foi momentaneamente abandonada pelos construtores.

(Associação paulista de organistas)

"E é ao Século XX que nos dirigimos agora. Especialmente palmilhamos em direção à música para órgão de um - além de Bach - dos maiores  ícones humanísticos para Otacílio Melgaço: Olivier Messiaen.

O.M. : O.M.

Parte do inconsciente coletivo em torno do qual órbita Melgaço, o instrumento aqui eleito também configura-se emblema-mor de tudo o que faz da religiosidade e da música: tácita comunhão. No estado de Minas Gerais (Brasil) há sólida tradição, basta conferirmos o quanto a cidade de Mariana e o Caraça servem de hospedeiros e bastiões do/ao que declaro acima. Não obstante um artista intemporal, Otacílio em Omnia Vincit Amor articula eixos medievais, ‘messiaenicos’ e contemporâneos em mesma estrutura e com isso deixa de ser um mero releitor (requentador?) do passado ou cacofônico futurista. Seu compromisso é com o 'Inefável'...: basta tentarmos auscultar (a inserção d)as profusas poesias em latim nessa obra fonográfica para compreendermos isso. E é em Século XXI que nos confraternizamos agora. Organum Plenum, terminologia quase ou sobretudo Mística, aura que redunda em halo à quíntupla peça melgaciana. Do Amor, fratermônico Elogio - em outras palavras: feição-ágape de O.M.

Esférica fluídica Música..."

Buenos Aires;

Pablo Suarez Paz

Tradução: Viriato Fortuna

C a r n i v à l e

Faixa Única - Tempo de Duração: 00:55:04

- Peça para Percussão em 7 Atos -

Composição/Instrumentação/

Arranjo/Mistura/Transcriofixação/Arte:

O t a c í l i o  M e l g a ç o

Imagens: Murillo

Estúdio Y o k n a p o t a w p h a + Unidade Euromobile

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Resenha TRANSRRITMIA EM MELGA

TIMBRES: a maior preocupação com os timbres leva à inclusão de sons estranhos, intrigantes e exóticos; fortes contrastes, às vezes explosivos; expansão e, de modo geral, o uso mais enfático da seção de percussão; sons desconhecidos tirados de instrumentos conhecidos, como instrumentos tocados em seus registros extremos, (...) sons inteiramente novos, provenientes de aparelhagens eletrônicas, computadores, fitas magnéticas, amostradores de sons (samplers), sintetizadores, dentre outros aparelhos.

RITMOS: vigorosos e dinâmicos, com amplo emprego de sincopados (a acentuação incidindo sobre os tempos fracos); métricas inusitadas, como compassos de cinco ou sete tempos (cujas raízes muitas vezes estão na música folclórica); mudanças de métrica de um compasso para outro; uso de polirritmias - diferentes ritmos ou métricas ocorrendo ao mesmo tempo, resultando em um contraponto rítmico; artifícios de ostinato (repetição 'obstinada'), ou de enérgicos 'ritmos motores', que impulsionam inexoravelmente a música para frente.

 (Paulo Motta)

"Carnivàle é uma Obra de Timbres e Ritmos... E de Poesia Sonora. Otacílio Melgaço nos oferece uma Peça para Percussão com intervenções recitativas (alusões a Joseph Beuys, Man Ray, Gertrude Stein etc) de uma proporção exuberante. Musicalmente aqui, Edgard Varése e Pierre Schaeffer são duas referências reincidentes na fortuna composicional de Melgaço e atingem seus píncaros em lastros excitantemente ensurdecedores de Carnivàle. Ensurdexcitantes: neologismo a se considerar. O título da Obra não deixa de ser irônico se pensarmos em uma das estampas mais propagadas da cultura do país que engendra Otacílio (Brasil) e, a meu ver, O.M. assume uma tessitura mesmo cáustica quanto à estereotipia burlesca que o Carnaval lança ao mundo como vitrine (sic) da Terra Brasilis. Creio que é uma resposta dada pelo compositor e instrumentista a si mesmo, reconfigurando como haveria de ser a ‘Festividade da Carne’ que unta sua artisticidade georufante a tempos ritualísticos (báquicos!) imemoriais. Os legados branco (europeu), indígena (autóctone) e negro (africano) encontram em Carnivàle uma expressão intrigante na torrente criativa desse Homo Ludens das Minas Gerais."

Buenos Aires:

Pablo Suarez Paz

Tradução: Viriato Fortuna

 

B l o o m s d a y

Faixa Única (Trilógica: Telemaquia Odisseia Nostos) - Tempo de Duração: 00:38:27 

- Obra dedicada a James Joyce; Poesia Sonora & Afins -

Composição/Instrumentação/

Arranjo/Mistura/Transcriofixação/Arte:

O t a c í l i o  M e l g a ç o

Imagens: Brancusi

Estúdio Y o k n a p o t a w p h a + Unidade Euromobile

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Resenha UM DIA NA VIDA DE UM CERTO BLOO.M.

1

'Joyce é o maior prosador do século XX'.
Semelhante afirmação está sujeita a dois tipos de contestação, extremos.
Não é bem assim. Maior, em que sentido? Afinal, há Proust.
Há Kafka. Thomas Mann.
– Faulkner!
No terreno ideológico, as objeções se multiplicam pela infinita imbecilidade que caracteriza o pensamento ideológico.
– Solidão aristocrática.
– Insensibilidade aos problemas reais do seu povo.
– Elitismo hermético.
– Intelectualismo pedante e cosmopolita.
Do outro lado, cada vez mais abundantes os que objetam.
Não é o maior prosador do século XX. É o maior prosador que jamais houve.
– Maior que Cervantes? E Quevedo?
– E Balzac?
– E Stendhal? E Flaubert?
– E Dostoievski?! E Tolstoi?!
Em que sentido, nesse time de gigantes, Joyce vem a ser o maior?
Primeiro, claro, pelo insuperável domínio dos poderes de som e sentido da língua em que escreve: a máquina material com que se expressa a alma de James Joyce só tem paralelo nos poderes sinfônicos de um Beethoven, de um Wagner, de um Stravinsky (e esse domínio sobre a arte é um domínio sobre a vida).
Depois, pela coerência arquitetônica única que conseguiu imprimir ao conjunto de sua obra o autor de 'Dublinen-ses' (1906), 'Retrato do Artista Quando Jovem' (1914), 'Ulysses' (1922) e 'Finnegans Wake' (1939). Os dois primeiros livros, um, uma coletânea de contos, e o outro um 'romance de formação' (um Bildungsroman, como dizem os alemães, grandes cultores do gênero, que começa, no século V, com as 'Confissões', de S. Agostinho), os 'Dublinenses' e o 'Retrato' ainda cabem dentro da estética textual do século
XIX.
'Ulysses', porém, é puro século XX, o século das megaló-poles, das massas, do comunismo, do fascismo, o século do cinema, do rádio, da psicanálise, da bomba atômica, que encerrou a guerra, que começou no ano em que foi publicado o 'Wake'.
Mas o 'Ulysses' ainda é, apesar de tantas inovações, um ro-mance,mesmo que seja o 'romance para acabar com todos os romances', do dito célebre.
O 'Wake' já é um texto para o século XXI, prosa, poesia?, o quê?
'Ulysses' foi difícil (é cada vez menos).
O 'Wake', cápsula do tempo, é ilegível (por enquanto) (1)

A irradiação da obra de Joyce atinge uma área imensa na prosa de ficção do século XX. Suas conquistas técnicas, como o monólogo interior, no 'Ulysses', fazem, hoje, parte do repertório comum, do parque de recursos de qualquer ficcio-nista que preze seu ofício. Hoje em dia, o monólogo interior já foi incorporado até pela ficção dita comercial, de consumo de massas: em 'Xogun', 'best-seller' mundial, James Clavell tira um belo partido desse recurso, outrora, de vanguarda.
'Ulysses'/Joyce é influência determinante na prosa mais criativa deste século. E a lista dos influenciados, direta ou in-diretamente, impressiona pela excelência literária: Faulkner, Beckett, Virgínia Woolf, Musil ('O Homem Sem Qualidades'), Broch ('A Morte de Virgílio'), Guimarães Rosa, Carlo Emílio Gadda, Augusto Roa Bastos, Lezama Lima, Cabrera Infante, Burgess...

2

Impecável a coerência crescente da engenharia de vôo entre as quatro obras-primas de Joyce.
Nos trinta anos entre os 'Dublinenses' e o 'Wake', sempre escreveu-se o mesmo livro, o mesmo universo sempre levado a graus cada vez mais agudos de criatividade verbal e inventiva arquitetônica.
O mesmo Universo: a Irlanda, a Irlanda, a Irlanda, maldita ilha maravilhosa, duende, sempre rebelde e sempre submissa à Inglaterra, terra de bêbados e excêntricos, de hipócritas e humoristas, com toda a parda mediocridade pastosa de Du-blin, sua capital, Irlanda papista, abafada debaixo de um catolicismo retrógrado, castrador, aldeão.
O mesmo Universo: vidas rotineiras, sem grandeza, sem horizontes, sem sentido.
Joyce só partiu para um exílio espontâneo pela Europa (Paris, Zurich, Trieste) para melhor cultivar, à distância, sua obsessão pela Irlanda, execrada e idolatrada na própria veemência dessa execração, idéia taxa, 'agenbite of inwit', memória, o único tempo possível,
Os temas, os tipos, e até frases inteiras se repetem, crescendo, dos 'Dublinenses' ao 'Wake'.
Joyce nunca saiu da Irlanda. Nunca saiu de sua obra.

3

'Os Dublinenses': a Irlanda, vista do lado de fora.
'Retrato do Artista' : a Irlanda, vista de dentro.
'Ulysses': entrechoque entre o fora e o dentro, "monólogo interior", o Dia, a História.
'Finnegans Wake': síntese dialética entre o fora e o dentro, pura linguagem, a Noite, o Sonho.
Na triunfal cavalgada das valquírias dessas quatro obras-primas, 'Giacomo Joyce' faz as vezes, talvez, de um filho bastardo, fruto de um prazer furtivo, de um amor clandestino, de um erro da juventude, de uma fantasia erótica.
Alinha, assim, com os livros de poemas, 'Chamber Music' e 'Pomes Penyeach', performances líricas de uma maestria métrica e verbal extraordinária, mas apenas um pouco mais que isso, no século dos 'Cantares' de Ezra Pound e do 'Waste Land', de T. S. Eliot.
Ou com 'Exiles', a peça que Joyce quis fazer, mas o mundo do teatro nunca amou.
(...)

Paulo Leminski
Do livro "Giacomo Joyce"
Editora Brasiliense, 1985

(1) É preciso entender, é claro, que a incompreensibilidade de uma obra é, como tudo mais, historicamente determinada: questão que sucessivas leituras irão pouco a pouco resolvendo, até criar em torno do corpo estranho certo número suficiente de constelações hermenêuticas, interpretações, diluições, sobretudo, que nos permita pisar no terreno firme da redundância, do já sabido, do "estou começando a entender". Em arte, o novo sempre se manifesta sob a modalidade do difícil. (Nota de Leminski)

"Suponho ter sido objetivo de Melgaço, na medida em que reproduz musicalmente a mesma subdivisão cronomitológica de 'Ulysses' assim como é demarcada por estratégico-pontuais passagens verbais, estabelecer analogia com o 'monólogo interior'.  Ainda Leminski: 'Monólogo interior' parece consistir, sobretudo, numa súbita (e não anunciada) passagem da terceira para a primeira pessoa no universo do discurso, uma passagem direta, sem índices do tipo, 'disse consigo', 'pensou', 'refletiu', e outros verbos que acusam a interioridade de um emissor. A ficção clássica, realista, naturalista, repousa sobre a falácia da objetividade, fundada, lingüisticamente, na terceira pessoa, no pólo do ELE, o pólo das coisas, como se as próprias coisas falassem de si, em lugar de um narrador. É a linguagem de Deus, o narrador onisciente. O monólogo interior representa um princípio de economia narrativa. E, consequentemente, um aumento de velocidade no tempo do texto e da leitura. Alguns traços dele em 'O Vermelho e o Negro', de Stendhal (1830). E em Dostoiesvski (1821-1881). O monólogo interior, de resto, representa uma espécie de carnavalização do eixo pronominal do relato.

U n d e   D e r i v a t u r

 Da personagem principal de 'Ulysses': aos iniciados que dominam ou mesmo comemoram o junino dia de Bloom, meio caminho andado à decifração da altitude da Obra de Melgaço. Aos que não, por ventura sugiro que partam logo no encalço das exegeses... Proposição minha que é um jogo, jogo que é odisséia carnavalizada no sentido mais edificador.

Permito-me adiantar o fato de que O.M., em performático lirismo, reveste as intervenções unidiário-poéticas (vozes do próprio artista, além de menção a  Joyce, Artaud, Breton etc) com uma perspectiva estupefaciente: coloraturas instrumentais com o mesmo caráter, se assim posso dizer, ‘monologal’ (monophonologal) e sobretudo que se passam no âmago, no mais íntimo da sua/nossa alma.

Em paráfrase ao Giacomo irlandês, ouvivemos Bloomsday através dos melgacianos lábios lúbricos longamente lânguidos... Sim: sílabas breves em som e fúria. Um breve bater de pálpebras vocais. E como disse: nossas almas, também se dissolvendo, derramando e vertendo e transbordando uma semente líquida e abundante..."

Buenos Aires;

Pablo Suarez Paz

Tradução: Viriato Fortuna

 

M a r i e n b a d

Faixa Única - Tempo de Duração: 00:59:37

- 7 ou 8 Proposições para Piano -

 Obra dedicada a Erik Satie

Composição/Instrumentação/

Arranjo/Mistura/Transcriofixação/Arte:

O t a c í l i o  M e l g a ç o

Imagens: Bouguereau

Estúdio Y o k n a p o t a w p h a

Copyright O.M ©. - Todos os Direitos Reservados -

Resenha ANNÉE DERNIÈRE À...

OU

   MELGAÇO COMO AMNÉSICO MEMORIALISTA

Quando eu era jovem, as pessoas diziam: 'Você verá, quando tiver 50 anos'. Tenho 50 e ainda não vi nada.

 Devo dizer que eu não poderia ser pupilo de ninguém a não ser de mim mesmo.

Os que não compreenderem são solicitados, por mim, a observar o mais respeitoso silêncio e a demonstrar uma atitude de inteira submissão, de total inferioridade.

(Erik Satie)

‘Mostrem-me algo novo, que começarei tudo outra vez’, Satie costumava dizer. E fez. Foi um precursor exponente de diversas tendências e desenvolvimentos importantes do século XX: bitonalidade, politonalidade, harmonia não triádica, jazz, ‘musique d'ameublement’ (que seria a precusora da música ambiente). Adotou também uma técnica desafiadoramente modernista e colocou títulos esdrúxulos em suas peças.

Tanto as Gymnopédies como as Gnossiennes foram escritas ainda no século XIX, o que não deixa de causar admiração, sobretudo se pensarmos que a sua simplicidade quase irreal e o seu despojamento musical contrastam radicalmente com a grandiosidade e a complexidade harmónica do universo musical wagneriano. Universo a que os compositores do final do século XIX se tinham vergado completamente. E até na sua duração estas pequenas peças para piano (entre 2 e 4 minutos cada) se destacam de tudo o que então se podia ouvir. São peças que soam inegavelmente a século XX e que abriram as portas a uma verdadeira revolução musical francesa que começou com Debussy.

A música de Satie foi na altura apreciada por poucos e desprezada pela maioria dos compositores e críticos musicais. Diversas fragilidades lhe costumavam ser apontadas, a mais importante das quais se referia à sua deficiente formação enquanto compositor e pianista. Dizia-se então que as suas miniaturas musicais com escalas pouco convencionais, harmonias estranhas e uma total ausência de virtuosismo instrumental eram apenas o reflexo de um compositor de fracos recursos técnicos. A verdade é que Satie tinha consciência das suas debilidades, tanto que em 1905 chegou a frequentar aulas com músicos prestigiados, abandonando por algum tempo a vida boémia a que se entregara com empenho — incluindo as sessões do Café du Chat Noir, em Montmartre, onde tocava todas as noites sob o nome de Gymnopédiste. Só que, entretanto, acabou por se desinteressar das aulas e, após cerca de 15 anos sem compor, decidiu retomar a composição e regressar à vida nocturna de Paris. Mas as suas peças continuaram a ser profundamente originais e discretamente subversivas, buscando inspiração num ambiente artístico estranho aos circuitos institucionais: os bares e cabarets que ele conhecia tão bem. A originalidade das suas peças manifestava-se também, com algum humor, nos próprios títulos que escolhia: Sonatina Burocrática; Prelúdios Flácidos (ambos incluídos neste disco e o último dos quais é dedicado a um cão); Desportos e Divertimentos; Antepenúltimos Pensamentos. Tentou ainda refutar a crítica de que as suas obras careciam de forma ao compor um conjunto de sete peças a que deu o nome de Três Peças em Forma de Pêra. Entre as obras que não se destinam ao piano, destacam-se a cantata Socrate e o ballet Parade, o qual contou com a colaboração do seu amigo Jean Cocteau e que incluía uma máquina de escrever e uma pistola no leque de instrumentos usados. Quando morreu, em 1925, consumido pela exigente vida noturna parisiense da época, tinha já conquistado um lugar único na música francesa e a admiração de figuras como Ravel. Também o iconoclasta John Cage viria a ser um dos grandes admiradores de Satie.

Satie é relevante? Nos termos johncageanos, 'Para interessar-se por ele, é preciso ser desinteressado para começar a aceitar que um som é um som e um homem é um homem, desistir de ilusões sobre idéias de ordem, expressões de sentimento e todas as nossas outras armadilhas estéticas herdadas.'
Não é uma questão de relevância.
Satie é indispensável.
Soam ensurdecedoiramente caricatos - aos meus olhos - apontamentos que lhe imputavam ridiculismos, bufonâncias: caricaturices... Afiguram-se ofuscantemente excentrisísmicos - aos meus ouvidos - o divisá-lo mero exotista.
'Somos enganados pelo conhecimento', cria F. Mompou, pois toda a verdade está no instinto: a grande lição de Satie é esta.

(Otacílio Melgaço)

"Destacar a menção titular feita ao filme de Resnais, me parece um ato de óbvia necessidade. Assistam ou reassistam à obra cinematográfica, melhor prólogo às proposições pianísticas de Melgaço não há. Se há o fundamentalista órgão na trilha sonora lá, aqui o piano (perpassando a devoção que O.M. tem por Satie) defende outro dimensionamento musical, provavelmente menos sacrário - certamente mais herético, ordenadamente orgiástico.

Marienbad nos traz um Melgaço filofonista, fonoscópico, fonometografista... Um Melgaço: Monsieur le Pauvre, L’Enfant Terrible, The Velvet Gentleman? Não são Proposições impressionistas pois não é uma arte invertebrada aquela que dá conteúdo ao presente registro em teclas. Em Marienbad, as teclas dos pianos de Melgaço são como vértebras! Uma prova musical de que O.M. é um músico medieval e doce, perdido neste século XXI? Quiçá? O que posso deflagrar é o mesmo que Cocteau a respeito de Erik: ‘Jamais escutou as sereias, salvo as sereias interiores. Fechou sempre os ouvidos com cera. Sempre se agarrou, como o prudente Ulisses, ao mastro.’ Ou melhor, oxalá Otacílio, a cada Obra, queime seus navios e assim, a proliferar divas sereias interiores, retire de nossos ouvidos quaisquer ceras para todo o sempre...

. . .

E que os ouvidos preencham todas as reticências!"

Buenos Aires;

Pablo Suarez Paz

Tradução: Viriato Fortuna

 

G ê m e o s

d e

C o c t e a u

15 Faixas - Títulos em Numerais Romanos - Tempo de Duração: 01:18:55 

- Coletânea Remixada -

Composição/Instrumentação/

Arranjo/Mistura/Transcriofixação/Arte:

O t a c í l i o  M e l g a ç o

Imagens: J.Cocteau

Estúdio Y o k n a p o t a w p h a

Copyright O.M ©. - Todos os Direitos Reservados -

Resenha ANTICAIXA DE PANDORA

Breves Históricos

I - Jean Cocteau

Jean Maurice Eugène Cocteau nasceu em 5de julho de 1889 em Maisons-Lafitte, Yvelines, Île-de-France, França. Faleceu em 11 de outubro de 1963. Jean Cocteau foi um dos mais talentosos artistas do século XX. Além de ser diretor de cinema, foi poeta, escritor, pintor, dramaturgo, cenógrafo, ator e escultor. Cocteau começou a escrever aos dez anos, aos dezesseis já publicava suas primeiras poesias. Atuou ativamente em diversos movimentos artísticos. Notadamente o conhecido Groupe des Six (grupo dos seis) cujo núcleo era Georges Auric (1899–1983), Louis Durey (1888–1979), Arthur Honegger (1892–1955), Darius Milhaud (1892–1974), Francis Poulenc (1899–1963), Germaine Tailleferre (1892–1983). Além destes, outros também tomaram parte, como Erik Satie e Jean Wiéner. Foi eleito membro da Academia Francesa em 1955. Homossexual, não escamoteou sua orientação sexual. Manteve estreita amizade com Jean Marais, seu ator preferido. Dentre seus amigos destaca-se Edith Piaf e Jean Genet. Cocteau realizou doze filmes. Todos ricos em simbolismos e imagens surreais. É considerado um dos mais importantes cineastas de todos os tempos. (Wikipédia)

II - Cocteau Twins

O Cocteau Twins foi formado em 1979 na Escócia pelo guitarrista Robin Guthrie e pelo baixista Will Heggie (que saiu da banda em 1983, cedendo o lugar para Simon Raymonde) e, completando o trio, a vocalista Elizabeth Fraser. Em 1982, já residindo em Londres, a banda assinou contrato com a gravadora 4AD, e lançando o primeiro álbum, 'Garlands'. Depois, foi a vez 'Head Over Heels', de 1993. A música da banda ganhou repercussão no cenário independente inglês rapidamente, devido a genialidade do pop sofisticado que o Cocteau Twins construiu em seus discos. O álbum 'Treasure', de 1994, é ponto alto na discografia da banda. A sonoridade atmosférica e a maravilhosa voz de Elizabeth Fraser contribuem para a bela e estranha música do grupo. Em 1991, o Cocteau Twins se apresentou no Brasil. Depois de vários discos, a banda se separou silenciosamente no final dos anos 90. (MuzPlay)

‘Comme quand dans le ciel plein de nuit avant que ne claque le premier feu de foudre, / Soudain le vent de Zeus dans un tourbillon plein de pailles et de paoussières avec la lessive de tout le village.’ (Cinq Grandes Odes, P.V.)

“A primeira coletânea de Obras melgacianas leva o nome de Gêmeos de Cocteau. Reúne passagens de criações instrumentais (http://veredasvivas.vilabol.uol.com.br), contemporâneas (tratadas neste sítio eletrônico) e mesmo um excerto ('Orquidário') de seu enveredamento pela canção brasileira (http://buritidosgerais.vilabol.uol.com.br). São 15 faixas que mantém seus títulos ocultos (um dos inúmeros indícios labirínticos de Gêmeos de Cocteau) pois somente recebem numerações como forma de identificação com exceção de ‘Leopardiom’. Todas foram remisturadas (remixadas) por O.M. a ponto de termos em mãos um retrospecto da vulcanidade paridora do compositor/instrumentista/vocalizador todavia com aspectos verdadeiramente ineditistas. Foram pinçadas de DESIDERIUM, O NOME DO ROSA, VEREDAS MORTAS, MINOTAUROMANCIA, SALOMÉ, MÚSICA PARA CAMALEÕES, DU SPIRITUEL DANS L’ART (DER BLAUE REITER – MELGAÇO’S MUSIC PROJECT) e CARNIVÀLE. As intervenções de Melgaço são precisas, transmutáveis com sutileza e surpreendência. Ressalto a relação que Otacílio estabelece entre Jean Cocteau, Cocteau Twins e sua ‘Caixa-de-Pandora-às-Avessas’. É inegável a devoção de O.M. pela sempiterna banda escocesa e o apanhado sonoro estrelado aqui reúne faixas melgacianas que, segundo seu autor, trazem a lume tal ‘gemialidade’. Surge então o ancoramento ao paraninfo francês Jean, o que torna o título do compêndio (impagável trocadilho por si só) mais rico em sugestividade. O simbolismo sonoro de Melgaço atinge seu paroxismo e cumpre tanto a função de iniciar ouvidores (efetivá-los como neófitos) quanto de expandir aqueles que já o são. A respeito de O.M., eu metafrasearia:

Que porta o deteria? Que muralha? A água fareja a água, e é mais líquido do que ela. É a água inerte em vista do espírito, sua força em vista da atividade deste? Sente, fareja, desenreda, rastreia, respira! E também está repleto de um deus, está repleto de gênio! Gêmeo, conhece todas as coisas e todas se conhecem em si, a cada coisa traz o parto. À 'língua onde as línguas acabam, tempo posto a prumo sobre o sentidos dos corações transitórios, silêncio das pinturas, hálito das estátuas'...

Eis: Otacílio 'jumeau de lui-même' Melgaço!”

Buenos Aires;

Pablo Suarez Paz

Tradução: Viriato Fortuna

 

S p l e e n

  I iZaac & muttner

II oZ

III pancreAtor (ZZZ)

IV Zarn! Zoppo Zarn!

V ZáZ-Zen parte ii

VI ZáZ-Zen parte i

VII ZiquiZira

VIII Zoopolitik

Tempo Total de Duração: 01:18:45

- Ruídos, Colagens, Tape Music et coetera -

Composição/Instrumentação/

Voz/Arranjo/Mistura/

Transcriofixação/Arte:

O t a c í l i o  M e l g a ç o

Imagens: Courbet

Estúdio Yoknapotawpha

Resenha DO R-U-G-I-T-U MELGACIANO

I -

No senso comum, a palavra ruído significa barulho, som ou poluição sonora não desejada. Na eletrônica, o ruído pode ser associado à percepção acústica, por exemplo: de um "chiado" característico (ruído branco) ou aos "chuviscos" na recepção fraca de um sinal de televisão. De forma parecida à granulação de uma foto, quando evidente, também tem o sentido de ruído. No processamento de sinais, pode ser entendido como um sinal sem sentido (aleatório), sendo importante a relação Sinal/Ruído na comunicação. Na Teoria da informação o ruído é considerado como portador de informação.

O ruído faz-se presente nos estudos de Acústica, Cibernética, Biologia, Eletrônica, Computação e Comunicação.

Classificação:

  • Ruído natural - refere-se à ruídos de causas naturais tais como radiação cósmica de fundo, ruídos atmosféricos, ruídos inerentes a dispositivos passivos e ativos da eletrônica.

  • Ruído artificial - refere-se a ruídos de causas artificiais, como por exemplo, ruídos de interferência.

  • Ruído exógeno - refere-se às interferências externas ao processo de comunicação, como outra mensagem.

  • Ruído endógeno - refere-se às interferências internas do processo de comunicação, como perda de mensagem durante seu transporte ou má utilização do código.

  • Ruído de repertório - refere-se às interferências ocorridas diretamente na produção ou interpretação da mensagem, provocadas pelo repertório dos emissores e receptores.

II -

Em francês, o termo spleen representa o estado de tristeza pensativa ou melancolia.

Etimologia

A palavra é de origem grega splēn. Na língua inglesa significa baço. A conexão entre spleen (o baço) e a melancolia é oriunda da medicina grega e a teoria dos humores. Um dos humores era a bílis negra segregada pelo baço e associada com a melancolia. Em oposição a esse conceito, o Talmud aponta o baço como o "órgão da risada", ainda que não esteja descartada uma anterior relação com a medicina dos humores sobre esse órgão.

Em alemão, a palavra "spleen", representa alguém sempre irritadiço. O baço, ao contrário, é chamado de "Milz" (parecido a "Milte", palavra que se dava ao baço em inglês antigo). No século XIX dizia-se que as mulheres mal-humoradas estavam afetadas pelo spleen. Em inglês moderno "to vent one's spleen" significa "expressar sua ira".

Na China, o spleen '(pi2)' é um dos fundamentos do temperamento e se supõe que influa no poder da vontade. Assim como "venting one's spleen" (expressar a ira), "发脾气" é uma expressão utilizada em chinês.

Na literatura

O termo foi popularizado pelo poeta Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867), mas já havia sido utilizado antes, particularmente durante a literatura romântica, no começo do século XIX.

Spleen esteve presente tanto no romantismo europeu como no brasileiro. A palavra denotava melancolia extrema, desejo de autodestruição, onde a morte é a única solução definitiva para os problemas do homem. Na morte seria encontrado o alívio que é vida, em um ciclo:

Vida - Fardo - Morte

Morte - Alívio - Vida

No romantismo brasileiro essa característica foi especialmente notada na poesia de Álvares de Azevedo.

( Wikipedia)

III -

Em SPLEEN, Otacílio Melgaço utiliza amplamente ruídos como mecanismos de criação, instrumentalização e confecção sonoras. Talvez seja a primeira de suas Obras em que tenha tão ostensiva e avassaladoramente lançado mão de tais artifícios para excitar-nos a audição e o imaginário! Em um de seus relatos, O.M. cita a relação colórica entre o ato de musicar e o de pintar na medida em que pautava alguns de seus engendros a partir de fonopinceladas marrons, vermelhas, rosas e brancas... Em outra feita, simulara sinergias: aspectos térmicos de (seus) corpos sonoros. Em suma, toda a gama detectável das vértebras ruidosas está presente aqui. Ainda mantendo em foco a terminologia com que inicio minha resenha, as intervenções melgacianas acabam por, a mim, soar poéticas, radioativamente poéticas! Traduzo: se os chamados ruídos de fundo do universo podem ser vislumbrados por nós enquanto elementos de uma cosmologia que 'fonetiza' o Big-Bang, as cosmogonias interiores - com que somos prenhados ao ouviver mais uma face intrigante da prole de O.M. - se revelam enveredamento inescapável a qualquer um que se considere verídico Ouvidor de novos século/milênio - recentemente inaugurados e que devem ser, via contemporaneidade-em-ultra-andamento, retumbados. Freneticamente ribombados através de uma Arte que lhes faça visceral jus - tal qual, indubitavelmente, SPLEEN!

P.S.: Uma suspeita: o elemento-letra 'Z', maiusculado e obsessivo, trespassando todos os batismos lewiscarrollianos das óctuplas músicas, pode trazer a lume irresistível  ultraísmo da 'onomatopoeia' melgaciana.

P.P.S.: Fragmento de um Erotolóquio: o enfeitiçamento que Baudelaire (ou, extrapolando, dandismo ou decadentismo ou...) causa em nosso artista é mais que notório. Nesse sentido, não se faz necessária qualquer explanação que justifique a palavra de origem grega adotada - tanto em seus lastros românticos quanto simbolistas: seria um truísmo. No entanto, é, em princípio, (prova dos bons e maus humores de O.M.) uma ironia misógina o entrecruzamento da imagem que figura em capa do presente álbum e o título do mesmo. Somente - e equivocadamente - 'em princípio'. Ninguém mais filógino que Otacílio - apesar de que, em todo

G-ê-n-i-o,

isto é, Àquele que se debruça por sobre O Ato das vivificações artísticas com suprema devoção sacerdotal (e, o mais relevante: em numinosa hierogamia com as Musas), há, suponho, regaço a relances pontuais de ginecofobia - em nome dos desbravamentos solitários do Paralém. Retomando a selva escura, selva selvagem: permitam-me adiantar uma dentre várias decifrações que mais esse enigma proposto em SPLEEN comporta: seria a 'Dentata' - verdadeiro antídoto - sugerido por Melgaço - a enruidado spleen?

Vida - Fardo - Morte / Morte - Alívio - Vida:

haveria um melhor encadeamento conotatório possível a icônico-mística (endógeno-exógena) 'Vagina'?"

Buenos Aires;

Pablo Suarez Paz

Tradução: Viriato Fortuna

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a p p e n d i x

(Aos que reivindicam conhecer biografia do Senhor Paz -  tal convicto  diletante  musicólogo - ou antimusicólogo? - argentino, videMILONGA DEL ANGELpor O.M.) VIDEPARTITURASDEOBRASMELGACIANAS VIDEENTREVISTAEXCLUSIVA Engendros de  Otacílio Melgaço  podem ser apreciados  (entre em contato para maiores informações) e adquiridos viaCorreio Eletrônico Demais Sítios do Artista: Música Instrumental Brasileira Música Popular Brasileira Obras em Récita Música Livre (Combo Cadavre Exquis)