“Se eu quero ‘a vida enquanto arte’, corro o risco de cair no estetismo, porque tenho o ar de pretender impor alguma coisa, uma certa idéia de vida. Parece-me que a música – ao menos tal como a encaro – não impõe nada. Nela mesma a música não nos obriga a nada. Ela pode ter como efeito mudar nossa maneira de ver, fazer-nos olhar como sendo arte tudo o que nos cerca. Mas isso não é um fim. Os sons não têm um fim! Eles são, simplesmente. Eles vivem. A música é esta vida dos sons, esta participação dos sons na vida, que pode tornar-se – mas não voluntariamente – uma participação da vida nos sons.”

 

 

J. Cage

 

 

 “Lá fora, os cantos já iam se modulando numa língua baixa, sonora e gutural, com articulações bem marcadas. Só os homens cantam; e seu uníssono, as melodias simples e repetidas cem vezes, a contraposição entre os solos e os conjuntos, o estilo másculo e trágico lembram os coros guerreiros de algum Männerbund germânico. Salvo alguns instrumentos de sopro que fizeram sua aparição em momentos prescritos do ritual, o único acompanhamento das vozes resumia-se aos maracás feitos com uma cabaça cheia de cascalho, sacudidos pelos corifeus. Era uma maravilha escutá-los: ora soltando ou interrompendo as vozes com uma pancada seca; ora enchendo os silêncios com o crepitar dos; ora, enfim, dirigindo os dançarinos por alternâncias de silêncios e ruídos cuja duração, intensidade e qualidade eram tão variadas que um maestro de nossos grandes concertos não saberia melhor indicar seu desejo. Não surpreende que outrora os indígenas e os próprios missionários tenham acreditado, em outras tribos, ouvir os demônios falarem por intermédio dos chocalhos! Aliás, sabe-se que se antigas ilusões a respeito dessas pretensas ‘linguagens tamboriladas’ foram desfeitas, parece provável que, pelo menos entre certos povos, elas se baseiem numa verdadeira codificação de língua, reduzida a alguns contornos significativos simbolicamente expressos.”

 

Sobre os índios bororo,

C. L é v i – S t r a u s s

 

 

"A educação deve, quer no domínio particular da música, quer no da vida afetiva, ocupar-se dos ritmos do ser humano, favorecer a liberdade das suas ações musculares e nervosas, ajudá-lo no triunfar das resistências e das inibições e harmonizar as suas funções corpóreas com as do pensamento.”

 

Dalcroze

 

“Não há música sem ideologia. Os mestres antigos tinham consciente e inconscientemente uma orientação política.”

 

D. Shostakovitch

 

“Conforme a música à qual um povo é acostumado assim é o caráter deste povo.”

 

Platão

 

 “Quando as pessoas tiverem aprendido a amar a música por ela própria, quando a ouvirem com outros ouvidos, o seu prazer será de ordem bem mais elevada e mais potente, o que lhes permitirá, então, apreciar a música num outro plano e poderá ser-lhes revelado o seu valor intrínseco”

 

I. Stravinsky

 

“Quem uma vez compreendeu minha música será livre da miséria em que os outros se arrastam!”

 

L. V. Beethoven

 

 “Existe muita música no mundo, elementar ou elaborada, erudita ou popular, mas somente o silêncio pode restituir ao som seu autêntico vigor – um profundo silêncio observado por todos aqueles que necessitam de música.”

 

Gavazzani

 

“Tem-se falado muito sobre música e tem-se dito tão pouco. Além do mais, creio que as palavras não bastam; se me parecesse o contrário, possivelmente eu não mais faria música. As pessoas queixam-se geralmente da ambigüidade da música. Afirmam ser duvidoso o que se possa pensar sobre ela enquanto se a escuta; em contrapartida, qualquer um compreende as palavras. A mim acontece justamente o contrário. Não só com longos discursos como também com palavras isoladas; estas parecem-me muito mais ambíguas, indefinidas e equívocas se comparadas com a verdadeira música que nos enche a alma de coisas que valem mais que as palavras. O que me transmite uma música de que gosto não constitui para mim idéias indefinidas – para dizê-lo com palavras – mas muito definidas. Se você me perguntasse em que pensei ao escrever isto (uma das Canções sem Palavras) eu diria: somente nesta canção, tal como está.”

 

F. Mendelssohn

 

  “As proporções musicais me parecem ser de fato as proporções-base da natureza. Todos os incidentes de nossa vida são materiais dos quais podemos fazer o que quisermos, quem possui muito espírito fará muito de sua vida, cada encontro, cada ocorrência seria, para o indivíduo inteiramente espiritual, o primeiro elo de uma série infinita, o começo de um romance infinito.”

 

Novalis

 

“Nada é mais odioso que a música sem um significado escondido.”

 

F. Chopin

 

“Pretendem os aficcionados compreender de imediato um problema sobre o qual os artistas pensaram durante dias, meses ou anos?”

 

R. Schumann

 

“Gostaria que se chegue, que se chegasse a uma música verdadeiramente livre de motivos, ou formada por um único motivo contínuo, que nada interrompe e jamais retorna. Convenço-me cada vez mais de que a música não é, por sua essência, algo que se possa colar a uma forma rigorosa e tradicional. Ela são cores e tempos ritmados... O resto é uma piada inventada por frios inbecis sobre os lombos dos Mestres, os quais geralmente não fizeram nada a não ser música de época! Só Bach pressentiu a verdade.”

 

C. Debussy

 

“O que gostaria de realizar seria uma música que satisfizesse por ela mesma, uma música que buscasse liberar-se de todo elemento pitoresco e descritivo, e para sempre distanciada de toda localização no espaço. Longe de querer descrever, esforço-me sempre no sentido de afastar do meu espírito a lembrança dos objetos e das formas susceptíveis de serem traduzidas por efeitos musicais. Quero fazer apenas música.”

 

A. Roussel

 

“A música expressa a natureza inconsciente deste e de outros mundos.”

 

A. Schöenberg

 

“A música é uma arte não significante, donde a importância primordial das estruturas propriamente lingüísticas, já que seu vocabulário não poderia assumir uma simples função de transmissão. Não ensinarei a ninguém a dupla função da linguagem, que permite uma comunicação direta, cotidiana, assim como serve de base à elaboração intelectual, ou, mais especialmente, poética; salta aos olhos que o emprego das palavras em um poema difere fundamentalmente da utilização corrente do vocabulário, numa conversação, por exemplo. Em música, ao contrário, a palavra é o pensamento. Que é, então, música? Ao mesmo tempo, uma arte, uma ciência e um artesanato.”

 

P. Boulez

 

“Há essencialmente duas perspectivas segundo as quais a música parece-me poder ser considerada uma linguagem...; elas correspondem diretamente às duas possibilidades de engajamento dessa linguagem a serviço da realidade e da problemática sociais. A música é sobretudo considerada como um veículo de uma mensagem. Todas as suas capacidades descritivas são colocadas a serviço da expressão, tão eloqüente, tão co-movente (e, portanto, pro-vocadora) quanto possível, de uma realidade que lhe é preexistente e que será finalmente a mais importante de apreender. Função duplamente voltada para o passado, para o lado passado do presente (que pode demonstrar uma persistência teimosa), já que é ela que parece ter sido tradicionalmente reconhecida para a música, e porque se trata de fazer ver aquilo que já está ali. Função quase monetária, a música não é aí senão o ‘símbolo’ de outra coisa. Mas há uma outra possibilidade, muito mais voltada para o futuro, para aquilo que não existe mas que poderia (deveria?) existir. Portanto, impossível de ser descrita, sobretudo de maneira exata (porque ainda não temos os meios mentais), sequer de ‘imaginar’; mas possível de experimentar, de suscitar sob forma fictícia pela fato de pôr à prova modelos exemplares. A recente bisca de formas de prática musical nova, com a maior iniciativa de todos os participantes, a espécie de antecipação microssocial de que ela permitiu e permite o atento estudo, parece-me um exemplo notório dessa possibilidade: sem que se tenha explicitamente buscado, ela se mostra algumas vezes capaz de fazer miraculosamente entrever o quadro de uma futura e bem melhor harmonia (por exemplo, de um tempo sem impaciência nem nostalgia).”

 

H. Pousseur  

 

“De todos os modos de expressão e de excitação, existe um que se impõe com um poder desmedido: ele domina, deprecia todos os outros (?), age sobre todo o nosso universo nervoso, superexcita-o, penetra-o, submete-o às flutuações mais caprichosas, acalma-o, destrói-o, prodigaliza-lhe as surpresas, as carícias, as inspirações e as tempestades; é dono de nossas existências, de nossos estremecimentos, de nossos pensamentos: esse poder é a Música, e ocorre que a música mais poderosa é soberana... Ao mesmo tempo diabólica e sagrada. É culto e vício; ensino e tóxico; ela realiza, como o faz uma função litúrgica aliás, a fusão de todo um auditório onde cada membro recebe a totalidade do sortilégio, pois um milhar de seres reunidos que, pelas mesmas causas, fecham os olhos, sofrem os mesmos arrebatamentos, sentem-se sós consigo mesmos e, no entanto, identificados através de sua emoção íntima com tantos próximos que se tornaram realmente seus semelhantes, formam a condição religiosa por excelência, a unidade sentimental de uma pluralidade viva. O maestro subia à estante. Poderíamos dizer que subia ao altar, que tomava o poder supremo; e, na realidade, ele o tomava, ele ia promulgar as leis, manifestar o poder dos próprios deuses da Música. A batuta era levantada: todas as respirações suspensas; todos os corações esperavam... O problema afinal não é mais inútil ou mais ingênuo que discutir o que fez uma bela obra de música ou poesia; e se ela nos nasceu da Musa, ou veio-nos do Acaso, ou se foi o fruto de um longo trabalho? Dizer que alguém a compôs, quer se chame Mozart ou Virgílio, não é dizer muita coisa; isso não vive no espírito, pois o que cria em nós absolutamente não tem nome; trata-se apenas de eliminar de nossa profissão todos os homens menos um, em cujo mistério íntimo encerra-se o enigma intacto. O som de nossa voz garante-nos muito mais do que esse firme propósito interno que ela pretende sonoramente que formemos. O timbre do violoncelo, sozinho, exerce em muitas pessoas um verdadeiro domínio visceral. Há palavras cuja freqüência em um autor revela-nos estarem dotadas de ressonância de uma qualidade completamente diferente nele e, em conseqüência, de uma força positivamente criadora, que normalmente não possuem. Esse é o exemplo dessas avaliações pessoais, desses grandes valores-para-um-só, que certamente desempenham um lindo papel em uma produção do espírito onde a singularidade é um elemento de primeira importância. Há uma contínua ou conservada ligação entre um ritmo e uma sintaxe, entre o som e o sentido. Reconheço em mim todos os objetos possíveis do mundo comum. Todos os objetos possíveis do mundo comum, externo ou interno, os seres, acontecimentos, sentimentos e atos, permanecendo o que são normalmente quanto às aparências, encontram-se de repente em uma relação indefinível, mas maravilhosamente ajustada ao gosto de nossa sensibilidade geral. Isso significa que as coisas e esses seres conhecidos - ou melhor, as idéias que os representam - transformam-se em algum tipo de valor. Eles se chamam entre si, associam-se de forma completamente diferente da dos meios normais; acham-se (permitam-me esta expressão) musicalizados, tendo se tornado ressonantes um pelo outro e como que harmonicamente correspondentes. O universo poético assim definido apresenta grandes analogias com o que podemos supor do universo do sonho. Compreender consiste na substituição mais ou menos rápida de um sistema de sonorização, de durações e de sinais por algo totalmente diferente que é, em suma, uma modificação ou uma reorganização interna da pessoa a quem se fala. E eis a comprovação: é que a pessoa que não compreendeu repete, ou pede que lhe repitam palavras. Permitam-me fortalecer a noção de universo poético lembrando um noção parecida, a de universo musical. Peço-lhes um pequeno sacrifício: o de reduzir por um instante a faculdade do ouvir. Um simples sentido, como o da audição, oferecerá tudo aquilo de que precisamos para nossa definição, dispensando-nos de entrar em todas as dificuldades e sutilezas às quais nos levariam a estrutura convencional da linguagem comum e suas complicações históricas. Vivemos, através do ouvido, no mundo dos ruídos. É um conjunto geralmente incoerente e alimentado irregularmente por todos os incidentes mecânicos que podem ser interpretados por esse  ouvido, à sua maneira. Mas o próprio ouvido destaca desse caos um outro conjunto de ruídos particularmente observáveis e simples - ou seja, bem reconhecíveis por nosso sentido e que lhe servem de referência. São elementos que mantêm relações entre si, tão sensíveis quanto esses mesmos elementos. O intervalo entre dois desses ruídos privilegiados é tão nítido quanto cada um deles. São os sons, e essas unidades sonoras estão aptas a formar combinações claras, implicações sucessivas ou simultâneas, encadeamentos e cruzamentos que podem ser denominados inteligíveis: é por isso que na música existem possibilidades abstratas. Assim, o músico se encontra em posse de um sistema perfeito de meios bem definidos, que fazem com que sensações correspondam exatamente a atos. Resulta de tudo isso que a música formou um campo próprio absolutamente seu. O mundo da arte musical, mundo dos sons, está bem separado do mundo dos ruídos. Enquanto um ruído se limita a estimular em nós um acontecimento isolado qualquer - um cachorro, uma porta, um carro...-, um som produzido evoca, por si só, o universo musical. Nesta sala em que estou falando, onde vocês ouvem o ruído de minha voz, se um diapasão ou um instrumento bem afinado começasse a vibrar, imediatamente, assim que fossem afetados por esse ruído excepcional e puro que não pode ser confundido com os outros, vocês teriam a sensação de um começo, o começo de um mundo; uma atmosfera diferente seria imediatamente criada, uma nova ordem seria anunciada, e vocês mesmos se organizariam inconscientemente para acolhê-la. O universo musical, portanto, estava em vocês, com as suas razões e proporções - como, em um líquido saturado de sal, um universo cristalino espera o choque molecular de um minúsculo cristal para manifestar-se. Ei-la: a idéia cristalina de tal sistema. E eis o que contraprova a experiência: se, em uma sala de concerto, enquanto a sinfonia soa e domina, acontece de cair uma cadeira, de uma pessoa tossir, de uma porta se fechar, imediatamente temos a impressão de alguma ruptura. Alguma coisa indefinível, da natureza de um encanto ou de um cálice de Veneza, foi quebrada ou rachada. As fórmulas mágicas são freqüentemente privadas de sentido... Agem em nós como um acorde musical. Uma idéia de algum Eu maravilhosamente superior ao Mim!  Quero contar-lhes uma história real: tinha saído de casa para descansar de algum trabalho enfadonho através da caminhada e dos olhares variados que ela atrai. Enquanto ia pela rua em que moro, fui tomado, de repente, por um ritmo que se impunha e que logo me deu a impressão de um funcionamento estranho. Como se alguém estivesse usando minha máquina de viver. Um outro ritmo veio então reforçar o primeiro, combinando-se com ele; e estabeleceram-se não sei que relações transversais entre essas duas leis. Isso estava combinando o movimento de minhas pernas andando e não sei que canto que eu murmurava, ou melhor, que se murmurava através de mim. Essa composição se tornou cada vez mais complicada e logo ultrapassou em complexidade tudo o que eu podia produzir racionalmente de acordo com minhas faculdades rítmicas comuns e utilizáveis. Nesse momento, a sensação de estranheza da qual falei tornou-se quase penosa, quase inquietante. Não sou músico; ignoro totalmente a técnica musical; e eis que estava preso por um desenvolvimento de diversas partes, de uma complicação com a qual nenhum poeta sonhou algum dia. Dizia-me então que havia erro de pessoa, que essa graça enganava-se de cabeça, já que eu nada podia fazer com esse dom - que, em um músico, teria sem dúvida tomado valor, forma e duração, enquanto essas partes, que se misturavam e desligavam-se, ofereciam-me inutilmente uma produção, cuja continuação culta e organizada maravilhava e desesperava minha ignorância. Depois de vinte minutos, o encanto se desvaneceu bruscamente; deixando-me, na margem do Sena, tão perplexo quanto a pata da Fábula que viu sair um cisne do ovo que havia chocado. Depois que o cisne voou, minha surpresa se transformou em reflexão. Eu sabia que a caminhada freqüentemente me entretém em uma viva emissão de idéias e que ocorre uma certa reciprocidade entre meu passo e meus pensamentos, com meus pensamentos modificando meu passo; com meu passo excitando meus pensamentos - o que, afinal, é notável mas compreensível. Ocorre, sem dúvida, um harmonização de nossos diversos ‘tempos de reação’, e é interessante supor que exista uma modificação recíproca possível entre um regime de ação, que é puramente muscular, e uma produção variada de imagens, de julgamentos e raciocínios. Mas, neste caso, aconteceu que meu movimento de caminhada se propagou para a minha consciência através de um sistema de ritmos bastante engenhoso ao invés de provocar em mim esse nascimento de imagens, de palavras internas e de atos visuais que denominamos idéias. Quanto às idéias, são coisas de uma espécie que me é familiar; são coisas que sei observar, provocar, manobrar... Mas não posso dizer o mesmo de meus ritmos inesperados. Construir ‘existe’ entre um projeto ou uma visão determinada e os materiais escolhidos. Substitui-se uma ordem inicial por uma outra, quaisquer que sejam os objetos ordenados. São pedras, cores, palavras, conceitos, homens etc.; sua natureza particular não muda as condições gerais dessa espécie de música onde ela desempenha ainda apenas o papel de timbre, se continuarmos a metáfora. O autor, na imensa maioria dos casos, é incapaz de se dar conta, ele próprio, dos caminhos tomados e de que ele é detentor de um poder cujos mecanismos ignora... Quer evoquemos a linguagem e sua melodia primitiva, a separação das palavras e da música, a arborescência de cada uma, a invenção dos verbos, da escrita, a complexidade figurada das frases que se torna possível, a intervenção tão curiosa das palavras abstratas; e, por outro lado, o sistema dos sons que se abrandam, que se estendem da voz às ressonâncias dos materiais, que se aprofundam através da harmonia, que variam através do uso dos timbres... Toda essa vitalidade multiforme pode ser apreciada sob a relação ornamental. (O ornamento, resposta ao vácuo, compensação do possível, completo de algum modo, anula uma liberdade?) Poesia.
Deveríamos estudá-la primeiro como pura sonoridade, lê-la e relê-la como uma espécie de música; introduzir o sentido e as intenções na dicção somente quando o sistema dos sons que deve, sob pena de supressão, ser oferecido por um poema, estiver bem apreendido... Leonardo da Vinci: “O ar está repleto de infinitas linhas retas e radiosas, entrecruzadas e tecidas sem que uma nunca se sirva do percurso de uma outra, e elas representam para cada objeto a verdadeira FORMA de sua razão - de sua explicação.”
Hoje, linhas de universo, mas não se pode mais vê-las pois somente as trajetórias sugeridas pelas melodias podem nos dar alguma idéia ou intuição de trajetória espaço-tempo... Talvez ouvi-las?" 

 

 

P.V.

 

 

A p ê n d i c e

"– Esses grandes criadores, por exemplo, esses Byron, Muset, Poe, Leopardi, Kleist, Gogol – não ouso citar nomes maiores, mas penso neles –, tal como são e têm de ser: criaturas do momento, sensuais, absurdos, quíntuplos, levianos e repentinos no confiar e no desconfiar; tendo almas em que habitualmente se deve esconder uma ruptura; muitas vezes vingando-se, com suas obras, de uma mancha interior; tantas vezes buscando, com seus vôos, esquecimento face a uma memória demasiado fiel, idealistas dos arreadores do pântano – que tortura são esses grandes artistas, e os chamados homens superiores em geral, para aquele que uma vez os decifrou... Somos todos advogados da mediocridade... É compreensível que eles precisamente sejam alvo, por parte da mulher, que é clarividente no mundo do sofrer e também ansiosa de ajudar e salvar, infelizmente muito além de suas forças, dessas erupções de ilimitada compaixão, que a multidão, sobretudo a multidão que venera, acumula de interpretações curiosas e autocomplacentes... Tal compaixão normalmente se ilude a respeito de sua força: a mulher quer acreditar que o amor tudo pode – é a sua peculiar superstição. Oh, o conhecedor do coração percebe quão pobre, desamparado, presunçoso e canhestro é inclusive o melhor e mais profundo amor – como ele antes destrói do que salva..." 

"– O nojo e a altivez espirituais de todo homem que sofreu profundamente – a hierarquia é quase que determinada pelo grau de sofrimento a que se pode chegar –, a arrepiante certeza de que é impregnado e tingido, de mediante seu sofrimento saber mais do que os mais inteligentes e sábios poderiam saber, de ter estado e ser versado em tantos mundos distantes e horríveis, dos quais “vocês nada sabem”..., esta silenciosa altivez espiritual, este orgulho do eleito do conhecimento, do “iniciado”, do quase-sacrificado, tem como necessárias todas as artes do disfarce, para proteger-se do contato com mãos importunas e compassivas e, sobretudo, de todo aquele que não lhe é igual na dor. O sofrimento profundo enobrece; coloca à parte. – Uma das mais sutis formas de disfarce é o epicurismo, e uma certa ostensiva bravura do gosto, que não toma a sério o sofrimento e se põe em guarda contra tudo que é triste e profundo. Há “homens joviais” que se utilizam da jovialidade porque graças a ela são mal-entendidos – eles querem ser mal-entendidos. Há “espíritos científicos” que recorrem à ciência porque esta lhes dá uma aparência jovial, e porque a cientificidade leva a concluir que o homem é superficial – eles querem induzir a uma conclusão errada... Há espíritos livres e insolentes, que gostariam de negar e ocultar que no fundo são corações destroçados, incuráveis – é o caso de Hamlet: então a doidice mesma pode ser a máscara para um saber desventurado e certo em demasia. –"

"Solitário então, e gravemente desconfiado de mim mesmo, tomei, não sem ira, partido contra mim e a favor de tudo o que me fazia mal e era duro: assim achei novamente o caminho para esse valente pessimismo que é o oposto de toda mendacidade idealista, e também, como quer me parecer, o caminho para mim – para minha tarefa... Esse oculto e soberano Algo, para o qual durante muito tempo não temos nome, até ele se revelar enfim como nossa tarefa – esse tirano em nós toma uma represália terrível contra toda tentativa que fazemos de nos esquivar ou fugir, contra toda resignação prematura, toda equiparação aos que não são nossos iguais, toda atividade, ainda que respeitável, que nos desvie do principal – e mesmo toda virtude que nos proteja contra a dureza da responsabilidade mais nossa. A cada vez a resposta é doença, quando queremos duvidar do direito à nossa tarefa, quando começamos a tornar as coisas mais fáceis para nós de algum modo. Estranho e horrível ao mesmo tempo! Os nossos alívios são o que temos de expiar mais duramente! E se quisermos depois voltar à saúde, não nos restará escolha: teremos de carregar um fardo mais pesado do que jamais carregamos antes..."

"Quanto mais um psicólogo, um nato, inevitável psicólogo e leitor de almas, voltar a atenção para os casos e seres mais elevados, maior será o perigo de ele sufocar de compaixão. Ele necessita de dureza e serenidade, mais que qualquer outro homem. Pois a corrupção, a ruína dos homens mais elevados constitui a regra: é horrível ter sempre antes os olhos uma tal regra. A múltipla tortura do psicólogo que divisou essa ruína, que descobriu uma vez e depois quase sempre, através da história inteira, essa “incurabilidade” interior do homem elevado, esse eterno “Tarde demais!” em todo sentido – pode vir a ser a causa de ele próprio se corromper... Em quase todo psicólogo se notará uma inclinação reveladora para lidar com gente cotidiana e regrada: nisto se mostra que ele sempre requer uma cura, que precisa de uma espécie de fuga e esquecimento, para longe de tudo o que lhe puseram na consciência as suas percepções e incisões, o seu ofício. O medo da própria memória lhe é bem característico. Ele facilmente emudece ante o juízo dos outros, escuta com rosto impassível como veneram, amam, admiram, transfiguram, ali onde ele viu – ou mesmo esconde seu silêncio, ao concordar expressamente com alguma opinião-de-fachada. Talvez o paradoxo da sua situação seja tão horrível que justamente ali, onde ele aprendeu a grande compaixão junto ao grande desprezo, os “homens cultos” aprendem a grande veneração... E quem sabe não ocorreu precisamente isso em todos os grandes casos – que se adorasse um deus, e o deus fosse um pobre animal de sacrifício... O êxito sempre foi o maior mentiroso – e também a obra, o ato é um êxito... O grande estadista, o conquistador, o descobridor está disfarçado, escondido em suas criações, até um ponto irreconhecível; a obra, a do artista, do filósofo, só ela inventa quem que criou, quem a teria criado... Os “grandes homens”, tal como são venerados, são pequenas ficções ruins, feitas posteriormente – no mundo dos valores históricos a moeda falsa domina..."

"Freqüentemente me perguntei se não tenho um débito mais profundo com os anos mais difíceis de minha vida do que com outros quaisquer. Minha natureza íntima me ensina que tudo necessário, visto do alto e no sentido de uma grande economia, é também vantajoso em si – deve-se não apenas suportá-lo, deve-se amá-lo... Amor fati [amor ao destino]: eis minha natureza íntima. – Quanto a minha longa enfermidade, não lhe devo indizivelmente mais do que a minha saúde? Devo-lhe uma mais elevada saúde , uma que é fortalecida por tudo o que não a destrói! – Devo-lhe também minha filosofia... Apenas a grande dor é o extremo liberador do espírito, enquanto mestre da grande suspeita , que de todo U faz um X, um autêntico e verdadeiro X, isto é, a antepenúltima letra... Apenas a grande dor, a longa, a lenta dor, em que somos queimados com madeira verde, por assim dizer, a dor que não tem pressa – obriga a nós filósofos, a alcançar nossa profundidade extrema e nos desvencilhar de toda confiança, toda benevolência, tudo o que encobre, que é brando, mediano, tudo em que antes púnhamos talvez nossa humanidade. Duvido que uma tal dor “aperfeiçoe”: mas sei que nos aprofunda... Seja que aprendemos a lhe opor nosso orgulho, nosso escárnio, nossa força de vontade, fazendo como o índio que, embora supliciado, obtém desforra de seu torturador mediante o veneno de sua língua; seja que ante a dor nos retiramos para o Nada, para o mudo, rígido, surdo entregar-se, esquecer-se, apagar-se: desses longos e perigosos exercícios de autodomínio retornamos outra pessoa, com algumas interrogações a mais – sobretudo com a vontade de doravante questionar mais, mais profundamente, severamente, duramente, maldosamente, silenciosamente do que até hoje foi questionado nesta Terra. A confiança na vida se foi; a vida mesma tornou-se um problema. – Mas não se creia que isso torne alguém necessariamente sombrio, uma coruja agourenta. Mesmo o amor à vida é ainda possível – apenas se ama diferente... É o amor a uma mulher da qual se duvida..." 

"Eis o mais estranho: temos depois um outro gosto – um segundo gosto. Desses abismos, também do abismo da grande suspeita voltamos renascidos, de pele mudada, mais suscetíveis, mais maldosos, com gosto mais sutil para a alegria, com língua mais delicada para todas as coisas boas, com sentidos mais joviais, com uma segunda, mais perigosa inocência na alegria, ao mesmo tempo mais infantis e cem vezes mais refinados do que antes. Moral: não se é impunemente o espírito mais profundo de todos os milênios – mas também não sem recompensa... Darei agora uma amostra.
Oh, como lhe repugna agora a fruição, a grosseira, surda, parda fruição tal como a entendem os fruidores, nossos “homens cultos”, nossos ricos e governantes! Com que malícia escutamos agora o barulho de grande feira com que o homem “culto” e citadino se deixar violentar pela arte, livros e música até sentir “prazeres espirituais”, não sem ajudar de bebidas espirituais! Como agora nos fere os ouvidos o grito teatral da paixão, como se tornou estranho ao nosso gosto esse romântico tumulto e emaranhado de sentidos que o populacho culto adora, e todas as suas aspirações ao excelso, elevado, empolado! Não, se nós, convalescentes, ainda precisamos de uma arte, é de uma outra arte – uma ligeira, zombeteira, divinamente imperturbada, divinamente artificial, que como uma pura flama lampeje num céu limpo! Sobretudo: uma arte para artistas, somente para artistas ! Nós nos entendemos melhor, depois quanto ao que primeiramente se requer para isso, a serenidade, toda serenidade, meus amigos!... Algumas coisas sabemos agora bem demais, nós sabedores: oh, como hoje aprendemos a bem esquecer, a bem não-saber, como artistas!... E no tocante a nosso futuro: dificilmente nos acharão nas trilhas daqueles jovens egípcios que à noite tornam inseguros os templos, abraçam estátuas e querem expor à luz, desvelar, descobrir, tudo absolutamente que por boas razões é escondido. Não, esse mau gosto, essa vontade de verdade, de “verdade a todo custo”, esse desvario adolescente no amor à verdade – nos aborrece: para isso somos demasiadamente experimentados, sérios, alegres, escaldados, profundos... Já não cremos que a verdade continue verdade, quando se lhe tira o véu ... Hoje é, para nós uma questão de decoro não querer ver tudo nu, estar presente a tudo, compreender e “saber” tudo. Tout comprendre – c’est tout mépriser [Tudo compreender – é tudo desprezar]... “É verdade que Deus está em toda parte?”, perguntou uma garotinha à sua mãe; “não acho isso decente” – um sinal para filósofos!... Deveríamos respeitar mais o pudor com que a natureza se escondeu por trás de enigmas e de colorida incertezas. Talvez a verdade seja uma mulher que tem razões para não deixar ver suas razões? Talvez, o seu nome, para falar grego, seja Baubo?... Oh, esses gregos! Eles entendiam do viver! Para isto é necessário permanecer valentemente na superfície, na dobra, na pele, adorar a aparência, acreditar em formas, em tons, em palavras, em todo o Olimpo da aparência ! Esses gregos eram superficiais – por profundidade... E não é precisamente a isso que retornamos, nós, temerários do espírito, que escalamos o mais elevado e perigoso pico do pensamento atual e de lá olhamos em torno, nós, que de lá olhamos para baixo? Não somos precisamente nisso – gregos? Adoradores das formas, dos tons, das palavras? E precisamente por isso – artistas ?...
"

(F. Nietzsche,

"Como me libertei de Wagner", 

Nietzsche contra Wagner)